Morte e arte kitsch
Eremita
É a doer, tem de ser a doer, morreram 64, ardidos, queimados, a fugir, sufocados em chaminés, encarcerados em carros sobre um talude onde até as jantes de liga leve derreteram (mas a quantas centenas de graus derrete a liga leve?), 64 até agora e provavelmente serão mais, há feridos graves e ainda andam a bater às portas a perguntar se falta alguém, 64 mortos têm de fazer isto andar, tem de ser a doer, não precisamos de chorar mas precisamos do choque, não foi só a mãe natureza que foi filha da mãe natureza com tufões de fogo e trovoadas secas e raios que houve e depois não houve e afinal houve, foi tudo isso mas não foi só isso, isso que o país tem pressa demais para saber e o Estado tem vagar demais para não saber... Pedro Santos Guerreiro
Temo pelo que pudesse ler mais neste texto se estivesse publicado na íntegra sem custo, agradecendo ao autor por só disponibilizar um parágrafo à borla. Mas será que este gajo não tem a mínima consciência do gongorismo maníaco da sua escrita, o qual passa como um ruído de fundo folclórico no panorama do jornalismo de opinião mas que configura uma indecência estética quando usa os 64 mortos como carne para o seu canhão narcísico? Valupi
E temes bem, caro Valupi, pois o nosso Pedro "Aaron Sorkin" Santos Guerreiro resolveu fazer uma crónica com uma única frase, de dimensão proustiana, sempre no registo insuportável que a tua citação captou, que está para a imprensa escrita como os vídeos de Pedródão Grande com música sentimentalóide estão para a televisão. Por momentos, até José António Saraiva me pareceu uma criatura sensata e com bom gosto.
