Meritocracia no café
Eremita
Quando, em Lisboa, ainda perseguia aquilo que se entende por uma "carreira", nas discussões entre colegas a dois, que é o número mais propício para as confissões e os desabafos, os colegas com sucesso nunca eram vistos como os melhores. Para explicar o seu sucesso, invocava-se a sorte e características algo tangenciais à corrupção moral, sendo frequente a expressão "sabe vender o peixe". Menos frequente, mas muito reveladora, era a acusação de que eles seriam "demasiado ambiciosos". Ninguém, mas mesmo ninguém, dizia que fulano teve sucesso por ser muito inteligente e criativo, as qualidades mais apreciadas na minha área. Ninguém. Estivesse o dia soalheiro e a pessoa chegasse ao café animada por um sexo matinal inesperado e muito satisfatório, talvez fosse capaz de dizer que o fulano de sucesso era "muito organizado" e "trabalhador", mas embora estas sejam características a que na minha área todos reconhecemos importância, a primeira não arrebata e a segunda tem o travo dos elogios consoladores, como quando se diz de uma rapariga que é "muito simpática". Aqueles tidos como os melhores pelos colegas, os inteligentes e criativos, eram, invariavelmente, pessoas condenadas por um sistema "perverso" ao falhanço ou, pior ainda, à mediania. E a ninguém ocorria a possibilidade de o outro com quem trocávamos ideias estar a pensar precisamente o mesmo que nós, isto é, que ele nos parecia algo invejoso.
