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Um diário trasladado

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05
Dez17

Maria Teresa Horta e um caso mental português


Eremita

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Maria Teresa Horta (MTH) resolveu dizer-nos que "repudia a classificação" atribuída ao seu livro Anunciações, um 4.º lugar ex-aequo, na edição de 2017 do prémio literário brasileiro Oceanos. É possível que MTH esteja viciada em protagonizar acontecimentos desta natureza, pois recusou há uns anos receber um prémio das mãos do então Primeiro-Ministro Passos Coelho, o que, na altura, lhe valeu a simpatia merecida de quase toda a gente. Desta vez ninguém ligou muito ao caso, o que foi uma sorte para MTH, pois o seu gesto é ridículo e a jactância da sua declaração intragável. Ora leiam:

Faço-o por respeito pela Literatura, por respeito pelas minhas leitoras e os meus leitores, e sobretudo pelo respeito que devo a mim própria e à minha já longa obra (...) Assim sendo, caros senhores, sois livres de dar a aplicação que vos aprouver aos 15 mil reais (4 mil euros) que me caberiam, não fosse esta inultrapassável questão que se me coloca e dá pelo nome de dignidade.

 

Mas desde quando ficar em 4º lugar (ex-eaquo) na atribuição de um prémio literário para uma obra é ofensivo? Desde que a vencedora seja também uma mulher (Ana Teresa Pereira), impossibilitando assim o lamento feminista de ter sido, uma vez mais, um homem a ganhar? Desde que o prémio monetário seja modesto e fácil de recusar, sendo ainda positivo o saldo entre o que não cai na conta bancária e o que se acumula em capital social? Desde que Inês Pedrosa ou outra qualquer feminista da burguesia, antecipando-se a MTH, argumente que um 4º lugar (ex-eaquo) atribuído a uma autora com o prestígio de MTH pode ser "uma forma de assédio moral"? Assédio moral? Respiremos bem fundo. Devo esclarecer que a minha antipatia por Inês Pedrosa precede os lamentáveis episódios de abuso de poder enquanto directora da Casa Fernando Pessoa de que foi acusada e que não relembro o caso para fazer um simples ataque ad homi... perdão, Inês, ad feminam, mas por me parecer revelador de uma forma de conceber o mundo e, em particular, os privilégios, muito assente na ideia de estatuto social, que poderia explicar as posições bizarras e o vocabulário de MTH e Inês Pedrosa. Usar termos como "repudiar" e, sobretudo, "assédio", uma escolha que, hoje, só pode ser lapso freudiano ou então conscientemente instrumental (remete para "assédio sexual" e discriminação de género), denuncia uma ânsia de protagonismo e vitimização cujo único efeito é diminuir a importância das palavras e a gravidade dos actos que essas palavras descrevem quando usadas com propriedade. Inês Pedrosa chega ao ponto de escrever que não premiar o livro teria sido melhor do que “dar-lhe um rebuçadinho para dividir com outro menino”, mas sendo o "menino" o escritor brasileiro Bernardo Carvalho, que é mais premiado, mais famoso e mais lido do que Pedrosa, seria demasiado fácil desmontar a engrenagem de feminismo primário e colonialismo bacoco que alimenta o pensamento desta escritora. Aliás, o que este episódio de recusa de um prémio tem de interessante relaciona-se menos com o feminismo e o colonialismo do que com a lógica de atribuição de prémios literários e a meritocracia no mundo literário e não só.

 

Sobre o estatuto do escritor e os mecanismos que geram prestígio, recomendo vivamente os textos de Alberto Velho Nogueira, que tem uma visão muito crítica e radical do meio literário. A minha posição é muito menos crítica do que a deste escritor, mas desconfio das instituições que atribuem prémios, por me parecer que são mais as vezes em que procuram prestígio pela associação a escritores já premiados do que aquelas em que descobrem ou recuperam escritores de valor, o que cria o fenómeno do escritor multipremiado, entre outras aberrações que distorcem a realidade mediana em que vivemos. Também por isso, no caso concreto, em que se premeia um livro e não uma carreira (uma distinção essencial), creio que MTH teria mais razões para se sentir honrada do que humilhada e não preciso sequer de invocar a tese peregrina do meu amigo Judeu, para quem um terceiro lugar é a melhor classificação possível, por nos elevar acima da escuridão, mas a salvo dos holofotes que encandeiam. Após uma longa carreira, ter uma obra recente numa short list de um dos mais importantes prémios literários, para mais empatada com a obra de um escritor com currículo, o que faz supor que houve trabalho de avaliação sério, e no ano em que o prémio é atriuído pela primeira vez a uma mulher, revela que a escritora está viva e entre os melhores ao fim de várias décadas de actividade literária. Não será isto o que se deseja ao longo de uma carreira? Que sejamos avaliados, a cada momento, por aquilo que fazemos? Onde está o "assédio moral"? Recusar a MTH um suposto paraíso na Terra, em que os últimos anos de vida são marcados por uma série de prémios hors-concours, como os de carreira e os doutoramentos honoris causa, é um assédio moral? Pretender, como faz Inês Pedrosa - um caso perdido de indignação mal dirigida - e - lamentavelmente -  a própria MTH, que a autora tem um estatuto demasiado importante para ser posta em confronto com os seus pares é que não dignifica MTH, desrespeita os seus leitores e a Literatura. Trata-se de um comportamento de casta superior que repudio, recuso e me repugna. Herberto Helder era bom a recusar prémios; ficava calado e não escrevia cartinhas grandiloquentes. Assim devem ser as recusas: totais, sem justificações, sem reclamar virtudes, de uma arrogância e humildade plenas, que apenas o silêncio consegue conciliar. Mas não é Herberto quem quer. 

 

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