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OURIQ

Um diário trasladado

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19
Fev17

Lugares cativos


Eremita

[actualização]

Admito que já me pelei por ler uma entrevista a Lobo Antunes. As entrevistas a Lobo Antunes e análises da sua obra* revelam uma figura em estado de perpétuo enamoramento consigo próprio, incapaz de falar sobre o mundo fora do registo autobiográfico. Lamento, mas ninguém, ninguém mesmo, nem sequer Richard P. Feynman, pode ser assim tão interessante. Ao passar pelo O Elogio da Derrota, reparei que Lobo Antunes voltou à carga e desferiu mais uns uppercuts no fantasma de José Saramago. Não perderei tempo com este cúmulo da vergonha alheia. Apenas me ocorreu que, além de Lobo Antunes, também os outros três do quarteto de romancistas portugueses da segunda metade do século XX consagrados, entretanto desaparecidos ou fora da vida pública, isto é, a caprichosa Agustina, o indolente Vergílio Ferreira e o vaidoso Saramago, revelavam uma obsessão ridícula com a posteridade. São como as crianças: dá-se-lhes atenção durante 50 anos e começam logo a pensar que serão eternos. Quando será que os melhores escritores de uma geração e, regra geral, todos os artistas, aceitarão que têm tanto direito à imortalidade quanto os melhores engenheiros, médicos ou juristas? Que raio de gente. 

 

12.2.2017

* Exceptuando os casos de Rui Cardoso Martins e Mário Crespo, Lobo Antunes tende a despertar a atenção de mulheres em estado de deleite: Ana Margarida de CarvalhoAlexandra Lucas Coelho, Anabela Mota RibeiroAna Paula Arnaut, Fátima Campos Ferreira, Isabel LucasMaria Alzira Seixo,  Maria Luisa Blanco e Susana João Carvalho.

 

Adenda: Ao contrário de José Sócrates, hoje um homem abandonado que só alguns ainda vão ouvindo por obrigação profissional, e do que António Lobo Antunes escreve em livros que quase ninguém lê, o que o escritor diz em entrevista, ainda que  sempre a mesma coisa dita da mesma maneira, continua a despertar um interesse surpreendente. No Público, António Guerreiro voltou a escrever sobre a ideia de génio e, no Homem à Janela, Alberto Velho Nogueira comparou os estilos de Saramago e Lobo Antunes de uma forma que vos fará brilhar na próxima vernissage, quando alguém forçar os maniqueísmos do costume: Beatles ou Stones? Dostoiévski ou Tolstói? Chico ou Caetano? Etc.

 

A obra de Lobo Antunes se é frágil é por ser uma proposta sem fundamento crítico, um modo de escrever sem apreciação crítica, sem uma modalidade racional em relação ao que é o escrever; a sua literatura é uma expressão sentimental, não na procura do sensível mas do estereotipado. Saramago tem uma escrita clássica, "composta", gramaticamente racional; pertence a outro mundo, regula-se pela tradição das literaturas escritas em português, de António Vieira a Aquilino Ribeiro, e em relação ao mundo da ficção em geral, através da ideia de cultura. A ideia literária de José Saramago está na racionalidade da escrita, tendo sido feita com a consciência do que é a elaboração de um discurso racionalizado. E que o discurso literário é um discurso funcionalizado pela ideologia e pela explicação do sensível. A escrita de Lobo Antunes tem relações com a impotencialidade da escrita que se resume ao que o escritor pensa ser um modo expressivo e imediato e que se funde na realidade da incapacidade; um tipo de impotencialidade/incapacidade poderia ser visto positivamente se se admitisse que a impotencialidade estivesse inscrita criticamente na sua obra. (...) A impotencialidade seria então uma saída dos convencionalismos que se poderão atribuir a José Saramago; e não só convencionalismos mas a convicção que Saramago tinha de que a estructura ficcional estaria próxima da estrutura racional. Saramago não seria um inventor de uma escrita que fugisse ao domínio do escritor, que lhe escapasse. Não é que Lobo Antunes tenha essa escrita fluida, perniciosa que escape ao controle e que não se saiba exactamente como se constitui, se há entre a escrita e o autor, de permeio, um inconsciente activo ou um consciente passivo, ou uma comunicação que pertence a um sistema que descontrola a necessidade de captar a explicação para fornecer a chamada incapacidade, a impotencialidade a que me referi. O sistema de Lobo Antunes não é um desequilíbrio entre os dois níveis de consciência ou duas fronteiras económicas da gestão pessoal do social. É uma elaboração a partir da linguagem "figée" que se contrai em sentimentalidade numa discursividade em conformidade com a pulsão regida pela legitimidade natural de uma linguagem comum que explica a sentimentalidade habitual. O que a escrita de Lobo Antunes demonstra é uma incapacidade de sair do lugar comum sentimental. Nem sequer é Art Brut na medida em que a escrita de Lobo Antunes é controlada pela visão direccional do discurso, imposta pela linguagem comum que nada significa a não ser a sua própria banalidade organizativa (e não só linguística) e que se prende ao próprio desenrolar da quotidianidade analisada à superfície. Nada em Lobo Antunes escapa ao controle. Alberto Velho Nogueira

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