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OURIQ

Um diário trasladado

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29
Jan18

Literatura e bolsa de valores


Eremita

Em 1984, com a pátria-mãe do comunismo intacta, tal como as certezas num rumo da história que faria eclipsar o ideário ocidental capitalista decadente, José Saramago permite-se ironizar, recorrendo a estereótipos, sobre os comunistas com intuito de tornar óbvio o injustificado ridículo das críticas ao comunismo na época de Salazar. A questão é que o tempo está a transformar as ironias de 1984 num tiro que sai pela culatra. Entre os anos da escrita e a atualidade, por um lado, o comunismo sofreu um cataclismo e, para desgraça do autor, quem ler o livro no contexto do século XXI terá razões de sobra para fazer interpretações literais sobre o ridículo do comunismo que José Saramago esconde a coberto dos ridículos dos regimes conservadores da época. Por outro lado, hoje a relação dos europeus ocidentais consigo mesmos não é a mesma dos anos oitenta. Daí resulta uma erosão significativa da construção intelectual de José Saramago, sintoma infalível de má literatura.

(...)

Considerando que o clímax d’«O Ano da Morte de Ricardo Reis» é a conversão de Fernando Pessoa, por via do heterónimo Ricardo Reis, quarenta e nove anos depois de morto aos encantos do comunismo, estamos perante uma grosseria intelectual bem mais corrosiva para a cultura e identidade portuguesas do que a propaganda do Estado Novo com o filme «A Revolução de Maio». No mínimo, o filme de 1937 e o alter-ego em livro de 1984 deveriam ter o tratamento que merecem em universidades e escolas: exemplos de ridículo intelectual.

Gabriel Mithá Ribeiro

 

Eis um documento único. Geralmente, a direita despreza Saramago, por não lhe perdoar o comunismo e o saneamento de 24 jornalistas do Diário de Notícias, no Verão Quente de 1975. Vasco Pulido Valente, por exemplo, não perdia uma oportunidade para desconsiderar a prosa do escritor, embora nunca desenvolvesse argumentos, como tantos outros, que se ficam por uma crítica pífia e muito pouco original sobre a forma de pontuar de Saramago ou por um snobismo sem capacidade de concretização. Coube a Mithá Ribeiro, no "sensacional" Observador, desenvolver uma verdadeira tese, em que o valor de O Ano da Morte de Ricardo Reis é indexado ao destino da União Soviética. Embora menos profético do que a irmã Lúcia, reconheça-se a Mithá Ribeiro um empenho anti-comunista que já vai rareando e que talvez também mereça tratamento em universidades e escolas ou até mesmo hospitais e sanatórios.

 

4 comentários

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    RFC

    29.01.18

    Nelson, não pesquei quase nada.
    Era professor de História no Secundário, o resto lamenta-se o quê?
  • Imagem de perfil

    Eremita

    29.01.18

    Essas interpretações a partir da biografia são mesmo para ficarem a cargo dos biógrafos, já depois da morte do biografado, pois tendem a ser injustas. Um dos meus colegas mais de esquerda, daqueles que aos 40 anos ainda andam com T-shirts do Che mesmo após terem lido tudo sobre o revolucionário, é filho de um antigo membro da PIDE. Seria muito fácil explicar a sua orientação política como reacção ao modo de vida do pai, mas como não temos forma de saber se o meu amigo ainda viria a ser quem é se o pai não existisse, trata-se de um exercício inútil e cruel.
  • Sem imagem de perfil

    Anónimo

    30.01.18

    A propósito ,há um caso que deu brado no burgo.A filha do diretor da PIDE Silva Pais ,Annie Silva Pais , fugiu para Cuba onde se apaixonou por tudo e mais pelo CHE. Isto deu origem a um livro A Filha Rebelde -Valdemar Cruz e José Pedro Castanheira que passou mais ou menos despercebido.Houve posteriormente uma adaptação para o teatro e aí a família processou os autores da peça por difamação?!!
    Uma bela historia de pais e filhos e seus caminhos nem sempre paralelos.
    Nelson
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