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Um diário trasladado

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25
Mai16

Karl Ove Knausgård


Eremita

 

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Salvo erro, ouvir falar em Karl Ove Knausgård num podcast da BBC. O escritor, que escrevia uma série monumental de livros autobiográficos e tinha um sucesso sem precedentes na Noruega, havia já sido traduzido para inglês e começava a ser elogiado pelos colegas de profissão por não fazer concessões na forma como expunha a sua intimidade e a da sua família; seria um caso raro de um escritor de escritores com sucesso comercial. Decorei o seu nome, mas não cheguei a comprar um dos seus livros. Alguns anos mais tarde, era a barriga já indisfarçável. L. começou a ler Knausgård com grande disciplina, depois de terminar a tradução que os Guerra fizeram dos Karamásov. Todas as noites, na cama, ela lia o nórdico. E nas tardes  de Julho e Agosto, estando eu a trabalhar, no escritório ou fora de casa, fosse no monte ou na oficina do Judeu, ela, obrigada a descansar por recomendação médica e a resguardar-se do calor, alternava entre o quarto e a sala sem largar o raio do viking. Eu já jantara sem qualquer desconforto com L. e um antigo amante dela. Reconheço que a reduzida estatura do indivíduo facilitou a minha urbanidade, ao ponto de L. ter até denunciado alguma frustração pela minha falta de ciúmes, naquela e ainda noutras alturas, como quando numa rara ocasião ela comentou a beleza de um estrangeiro com pinta de intelectual alemão consciencioso que connosco se cruzou em Ourique. Sendo eu muito competitivo, a falta de ciúmes que sempre me acompanhou é algo surpreendente, sobretudo nos quatro casos teoricamente trágicos em que fui trocado por outro. Mas naquele Verão senti ciúmes de Knausgaard. Muitos ciúmes. Seria por L. estar grávida? Por ela ser uma boa leitora, ele um escritor famoso e eu um simples blogger? A leitura precedente dos Karamásov permite descartar hipóteses. Dostoiévski é um escritor incomparavelmente mais consagrado do que Knausgård e não me despertou ciúmes. Duvido que  o ar enfermo do russo seja relevante. A grande diferença é o perigo de L. um dia largar tudo em busca de Knausgård ou, de algum outro modo mais verosímil e menos radical, começar a interagir com ele. Generalizando o modo como John Updike foi descrito, na sua essência um escritor é um "penis with a thesaurus". A conclusão pareceu-me então óbvia e inevitável: daí em diante, oferecer a L. apenas livros escritos por mulheres ou então de escritores mortos, de preferência em avançado estado de decomposição. 

 

 

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