Jóia de Família
Eremita

Para viver além da culpa era preciso uma fortaleza que se alimentava de um só propósito: ir subindo na escala humana até atingir um lugar que lhe parecesse digno dela. Chegou a perceber porque a mãe não a amava, ainda que se esforçasse por isso. Era porque a via sempre desprendida do que era próprio para atingir outro estado, que, não sendo de perfeição, considerava conforme o seu dever mais profundo. Deixava a antiga pele com atroz frieza e, com ela, a dedicação dos outros por essa roupagem da sua alma. Agustina Bessa-Luís, Jóia de Família
Falta a Jóia de Família (Agustina Bessa-Luís, 2001) o vigor, misticismo, originalidade e exuberância lexical de A Sibila (ABL, 1954). A intromissão da criminalidade na vida burguesa é tratada de forma preguiçosa e perde na comparação óbvia com o magnífico O Delfim, de Cardoso Pires. A narrativa arrasta-se, só acelerando na parte final, talvez um sinal de que também a escritora se aborreceu enquanto escrevia, mas até os útlimos capítulos falham, pois a entrada de um inspector da polícia numa história de personagens sem culpa ou remorso sabe a Dostoiévski descafeinado. Sobram os aforismos da narradora, aquela personagem feminina recorrente que existe para veicular as boutades de Agustina em discurso directo, as leis sociais sem grande fundamento mas com o irresistível apelo de uma convicção insondável. Talvez seja suficiente, sobretudo se não pensar nas horas de leitura que me sobram. Como faz parte de uma trilogia, sinto-me agora obrigado a ler os outros dois romances, i.e. A Alma dos Ricos (2002) e O Princípio da Incerteza (2003) — é surpreendente como ainda me deixo apanhar por estas manhas das editoras. Mas antes que as férias acabem conto terminar outras leituras que iniciei há muito tempo, como Sérotonine, do Houllebecq, e Infinite Jest, do Foster Wallace, que ando a ler vai para uma década. Sempre desconfiei daqueles que iniciam leituras durante as férias.
