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OURIQ

Um diário trasladado

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02
Set17

Importar ideias à bruta


Eremita

Nunca digas: "desta água não beberei", sobretudo se já a bebeste. Confesso ter discutido o Criacionismo com um protestante lusitano, um debate importado dos EUA, sem grande tradição e nenhuma relevância em Portugal, porque o ensino da Evolução não está em perigo. Mas em minha defesa poderia argumentar que nunca debati o Criacionismo embuído de um espírito de missão, como se desse ao tema a relevância de um problema ou ameaça social. Pelo contrário, a mais recente crónica de Henrique Raposo no Expresso, intitulada "Requiem dos machos", é um exemplo perfeito da moda de importar debates que apanhamos de ouvido na imprensa estrangeira e não se adequam à nossa realidade. Henrique Raposo leu coisas na The Atlantic e vem dizer-nos que os rapazes, por causa da internet, dos gadgets e da "destruição dos códigos e actividades masculinas", já não se interessam por sexo. Meus amigos, num país a atravessar uma grave crise de natalidade, isto é prosa incendiária. E o tom não podia ser mais alarmista: "Jovens e velhos enforcam-se como nunca". Mas que jovens? Os norte-americanos? Os japoneses, citados en passant na crónica? Os adolescentes portugueses, que começam a ter sexo quando Raposo ainda nem brincava com a pilinha? E, sabendo nós que o suicídio entre os velhos diminuiu nos EUA, em Portugal e até no Japão, a quem se refere Raposo? O cronista não nos esclarece, talvez por um assomo de consciência. É ao leitor que cabe compor uma demografia inventada, feita de velhos do Baixo-Alentejo e de jovens japoneses. É o leitor que tem depois de sacudir da cabeça o nexo causal absurdo entre a perda de "códigos" masculinos e o desinteresse pelo sexo que acaba por conduzir ao suicídio. Saberá Raposo que, nos EUA, o grupo que teve o maior aumento relativo de suicídio nos últimos anos foi o das raparigas? Fica ainda a pergunta: que pensará Raposo do seppuku, o ritual de suicídio entre samurais? Será um "código" masculino útil? Um suicídio, certo, mas um suicídio à homem, que devemos preservar como tradição?

 

Há uns anos, estavam na moda os livros e artigos sobre o declínio dos homens, uma decadência social e até biológica. Em pouco tempo, estas teses fortaleceram os até então vestigiais movimentos de defesa dos direitos dos homens (em rigor, dos machos que não podem reclamar-se de nenhuma minoria), já descritos como a melhor forma de recrutar rapaziada para a Alt-right, que faz da defesa dos direitos dos homens, supostamente ameaçados pelo politicamente correcto e um feminismo galopante, uma das suas grandes causas. Semanas depois dos confrontos de Charlottesville, esta converseta de Raposo sobre os direitos dos homens e os "códigos" masculinos é de uma candura insustentável.

 

 

 

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