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Um diário trasladado

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12
Set19

Guerrear


Eremita

Filipe Nunes Vicente (FNV) criou um novo blog e continua a guerra cultural. Um dos alvos fáceis da direita é a hipocrisia de esquerda. Reconheça-se que existe uma hipocrisia de esquerda e que muitos esquerdistas deixariam de o ser se os seus interesses começassem a ser seriamente ameaçados pelos interesses daqueles que defendem⁠ — nesse sentido, há um paralelo óbvio entre a solidariedade de esquerda e a caridade das famílias ricas católicas. Mas os alvos fáceis fazem com que o atirador se torne desleixado. 

Ainda a propósito de uma discussão recente sobre os censos, FNV lembrou-se de apresentar um "inventário" para provar que os adeptos do anti-racismo não praticam o que andam a pregar, pois o Público , entre outros órgãos de informação, não emprega negros e os partidos de esquerda não têm deputados negros. 

Sabe-se que são poucos os negros que chegam e ainda menos os que terminam o ensino superior, hoje uma condição praticamente essencial para se exercer jornalismo, pelo que não se percebe o reparo quanto à proporção de negros no jornalismo. Os órgãos de informação com inclinações de esquerda deviam fazer exactamente o quê para não serem hipócritas na sua exposição do racismo? Atenuar os critérios de selecção e meter uns negros nas redacções para efeito decorativo? Não ficariam depois à mercê do FNV, que afinfaria com a crítica do paternalismo? É o caso típico de ser preso por ter cão e não ter. 

Quanto ao "inventário", sem deixar de lembrar que o caso de Hélder Amaral (PP) apresentado por FNV é tão raro que não será (estatisticamente) significativo, a verdade é que as omissões de FNV mostram que "Ideias Feitas", o nome do blog, é uma descrição rigorosa. O único Governo em democracia a ter um primeiro-ministro que não é branco e uma ministra (Francisca Van Dunem) negra, que ocupa inclusive uma pasta importante, é o actual. Salvo erro, todos os ministros dos governos de direita (AD, Cavaco Silva, Durão Barroso, Santana Lopes e Pedro Passos Coelho) eram brancos. Não posso afirmar o mesmo em relação a secretários de Estado, mas também não me recordo de nenhum pertencente a alguma minoria. Creio que o único partido a ter uma deputada (Idália Serrão) com ascendência cigana (o avô) é o PS. O secretário de Estado das Autarquias Locais, Carlos Miguel (PS), é filho de um cigano. E julgo que também foi este Governo o primeiro a entregar uma secretaria de Estado a uma cidadã cega (Ana Sofia Antunes). Mais recentemente, a primeira negra a apresentar-se como cabeça de lista é do Livre. O PSD fez o quê nos últimos tempos? Que me lembre, inventou André Ventura. E quanto ao Público, é provavelmente o único jornal português em que se pode ler opinião escrita por negros como alguma regularidade.

Raras vezes vi tamanha distorção da realidade. E para quê? Para um remate que na cabeça de FNV soa a estocada final: "Se os cavaleiros do anti-racismo se portam desta maneira, mais uma incómoda pergunta tem de ser feita: em nome de quem, e com que autoridade moral ou política defendem eles as vítimas do racismo? " Vimos já que a pergunta se desmonta com uma resposta empírica. Mas o mais extraordinário é FNV não considerar a hipótese de não ser necessária autoridade moral para defender vítimas de racismo, pois o gesto basta. Levando o argumento ao extremo, um comportamento anti-racista de um empedernido racista vale mais como acto decente do que como contradição ou novidade. Enfim, o Alberto Gonçalves também pertence a esta escola de irreverência, mas ao menos tem graça.

2 comentários

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    Eremita

    13.09.19

    O PCP vê o mundo segundo uma luta de classes que se definem sobretudo pelo rendimento, não pela cor da pele (apesar da sobreposição óbvia). Para mais, na tradição do PCP, documentos fundadores e iconografia, o operário está numa fábrica, não está na construção civil, nem a limpar escadas. O Bloco é muito mais sensível à política identitária. Mas antes de acusar o Bloco de hipocrisia, diria que a explicação para não ter um deputado negro é a dificuldade de recrutamento. De resto, esta discussão é absurda, mesmo no caso do Bloco. Hélder Amaral, o trunfo da direita, é hoje sobretudo conhecido por discutir bola na TV. O negro que mais política faz em Portugal é Mamadou Ba, dirigente do SOS Racismo... e assessor do Bloco.
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