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OURIQ

Um diário trasladado

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28
Abr19

Guarda-redes (3)


Eremita

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Cheguei a ter umas luvas amarelas. Eram umas boas luvas, embora modestas. Sobre a malha amarela havia fileiras de pontos negros de borracha, que me fizeram um pouco menos frangueiro. Mas fui sempre frangueiro,  até perceber que a vida de um defesa esquerdo é mais tranquila. Só gostava de defender remates de longa distância. Faltava-me instinto de oferecer o corpo à bola nos remates à queima-roupa e a confusão dentro da área não era para mim. Ponhamos o dedo na ferida: a coragem física é essencial num guardião. Por isso, de nada valia o vício das defesas de pontapés de longa distância. E não se podia pedir ao avançado que rematasse sempre de longe e ao ângulo esquerdo, só por ser para onde eu voava com facilidade e - curiosamente - em ambas as balizas ser esse o lado com a relva mais farta. Eu vivia iludido com a ideia de um talento que não possuía e equivocado, pois encarava o atacante não como um adversário mas um cúmplice. Creio ainda que me julgava com poderes mágicos para desacelerar a realidade, pois de outo modo não se explica que pensasse durante tanto tempo na estirada que iria fazer. Era uma experiência extra-corpórea mal concretizada, pois em vez de um corpo sair à velocidade da luz do meu eu contemplativo e imóvel para fazer a mancha, saía vagaroso, apenas a tempo de não ouvir as críticas dos meus colegas de equipa. Cheguei a fazer umas boas defesas, que foram meros acidentes estatíscos, e consegui esquecer todos os meus frangos como nunca viria a esquecer os erros de ortografia, mas foi uma decisão acertada mudar de posição.

 

Ainda hoje é o guarda-redes quem mais respeito, por ser o jogador mais singular e aquele que tem o fardo mais pesado sobre os ombros. O guardião é um bode expiatório até prova em contrário. Não é coincidência que o pesado pensamento filosófico centro-europeu tenha escolhido, ainda que com uma pertinência discutível, a angústia do guarda-redes para metáfora de vida em (pub) Die Angst des Tormanns beim Elfmeter !  Ponhamos o dedo na ferida, agora ainda mais fundo: a coragem é essencial para se viver. Era essa dimensão trágica que me atraía. Mas faltava-me a queda. Nunca me ocorreu tirar as luvas amarelas num momento crucial e defender o remate com as mãos nuas. Apenas momentos como esses fazem um herói de bairro e reabilitam um frangueiro.

 

Da série A Bola no Olival, 100 textos curtos sobre a infância antes da puberdade no bairro Olivais Sul (Lisboa) no final dos anos 70, princípio dos anos 80. Os textos apareceram pela primeira vez no extinto A Memória Inventada e estou a republicá-los no Ouriq com pequenas emendas e acrescentos. 

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