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01
Jan18

Governo Sombra: da farsa à tragédia


Eremita

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Nas sociedades totalitárias, o humor é a derradeira forma de crítica dos opressores que resta aos oprimidos; é o que dá uma aura de nobreza  às piadas feitas na RDA e na URSS, que devemos preservar como património da humanidade. Nas sociedades abertas, o humor desempenha ainda um papel essencial e nobre, mas de outra natureza. O humor é nobre quando serve para dizer o que não se consegue expressar de outro modo, o que é válido para alguém com dificuldade em expressar sentimentos que, por exemplo, mostra afecto através de uma piada, e, obviamente para o humor mais radical, o que testa os limites da nossa tolerância e relança o eterno debate sobre a liberdade de expressão. Quanto ao humor político que se vende nos nossos media em inúmeras formas, o seu papel é algo paradoxal. Numa sociedade em que há liberdade de expressão, um jornalismo capaz de expor os podres de um regime e dos poderosos esvazia de nobreza o humor que é feito na ressaca da notícia. O humor pode ser tecnicamente bom ou mau, mas não é essencial, nem nobre. Pode contribuir para o embaraço público do visado, mas a minha impressão é que essencialmente atenua a onda de indignação que a notícia provocou, sendo esse o efeito paradoxal. Por outras palavras, o humor surge como uma espécie de crítica ritualizada a um grau tão extremo que perde toda a sua eficácia enquanto instrumento de crítica e até se transmuta no oposto, servindo para legitimar aberrações. Um excelente exemplo aconteceu no passado sábado, no Governo Sombra. Os rapazes resolveram convidar Arnaldo Matos para lhe sacar boçalidades e até foi divertido, mas tratou-se de um guilty pleasure que não enobrece ninguém. Falou-se muito de Marx e é sobejamente conhecida a criação do barbudo sobre a repetição da História, que acontecerá primeiro como tragédia e depois como farsa, mas no caso de programas cómicos televisivos parece que mais facilmente se passa da farsa à tragédia, sendo a posteriori penoso recordar como Carlos Vaz Marques e os três compinchas (1, 2, 3), sem excepção, salivavam em permanência, sedentos de mais uma boçalidade de Arnaldo Matos. Foram pontualmente eficazes e historicamente nojentos. Eis o que está em causa:
 
Entrámos no último dia do ano com o programa televisivo "Governo Sombra" a ter como convidado Arnaldo Matos. O atual "dono" do PCTP-MRPP foi recebido com um tom visivelmente complacente pelos "residentes" do programa, ansiosos por lhe extraírem declarações chocantes e expressões radicais, à altura daquilo a que o velho político sempre habituou o seu auditório. Conhecedor do palco que pisava, Matos não se fez rogado e, no meio de elogios táticos aos anfitriões, esteve à altura da "performance" aguardada, chamando "nazis" aos gestores alemães da Auto-Europa e mostrando compreensão pelos ataques do Estado Islâmico. Foi notório o gozo com que continua a ser recebida a qualificação de "social-fascista" que o MRPP sempre aplica ao PCP. É que o MRPP continua a ser o "enfant chéri" (para ser simpático) de certos meios, que sempre o cobrem com uma espécie de juízo de inimputabilidade, que nos dias de hoje o coloca ao nível de uma caricatura de comédia.
 
Pena foi, contudo, que ninguém tivesse perguntado a Arnaldo Matos com que direito tomou conta do partido, onde não exerce nenhum cargo eleito. É que isso permitiria a este auto-proclamado porta-voz da classe operária e frequentador do Gambrinus esclarecer com que legitimidade é hoje o depositário e usufrutuário da subvenção pública de centenas de milhares de euros atribuídos anualmente ao partido pelo Estado. Em democracia, os partidos têm de ser os primeiros a praticar, no seu seio, regras democráticas; se o não fazem, não devem ter o direito a dispor dos privilégios que constitucionalmente os beneficiam. Ora no seio do PCTP-MRPP, como é público, vive-se hoje uma ditadura interna protagonizada por Arnaldo Matos, que tomou conta da máquina política e financeira, sem ter sido eleito, como ele próprio revelou no programa. Embaixador Seixas da Costa

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