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OURIQ

Um diário trasladado

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07
Mai19

Foguetões (9)


Eremita

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De todas as árvores do bairro, as oliveiras alinhadas ao longo do passeio, os frágeis jovens plátanos que ainda cresciam amparados por uma estaca, os plátanos maduros e robustos que trepávamos de noite e feríamos à navalha, os abrunheiros de cor indefinida, entre o vermelho e o roxo, os ciprestes que indicavam o cemitério, aquele chorão isolado que nos protegia, os choupos de tronco esbranquiçado, de todas estas árvores, as faias eram as mais queridas e as mais úteis.

 

Eu vivia com o estigma de ser desprovido de imaginação desde o dia em que na sala da primária a dona Natividade nos pedira para colorirmos um guarda-chuva, exercício que os meus colegas cumpriram com manifestações de exuberância cromática e eu com uma sobriedade que deixou a professorea perplexa diante do meu guarda-chuva preto. Para me convencer que também era capaz de descolar da realidade, passei então a tranquilizar-me periodicamente praticando uma espécie de alucinação consciente e forçada. Mas talvez por ser mesmo desprovido de imaginação, uma só alucinação tornou-se recorrente: as faias, talvez as que via da janela do meu quarto, estremecem muito até que conseguen libertar as raízes do solo com estrondo e erguer-se a prumo animadas por uma força que deixa as raízes flamejantes e faz das árvores foguetões. Perdi a conta ao número de vezes que repeti este exercício, a que ainda hoje recorro quando me sinto inseguro, mesmo estando a dona Natividade já enterrada há vários anos. 

 

 As faias eram também as árvores mais úteis porque fazem boas balizas, sobretudo as árvores vivas, de tronco aprumado e perímetro à medida de um abraço de menino, a promover um ligeiro aumento da percentagem de tiros ao poste. Acrescente-se que as raízes das faias não se manifestam à superfície, como convinha aos guarda-redes e aos avançados com o vício do voo de peixe. Mas há algo mais subtil. Não sei se é pela arquitectura do xilema ou se pela densidade da seiva bruta que por ali corre, o certo é que o som de um petardo naqueles postes tinha o arredondado de um grave de contrabaixo caro. Há também relatos dos balázios outonais do Samagaio, que supostamente despiam as copas num instante, numa chuva de folhas que marcava o início da estação, mas aqui estamos claramente no domínio da mitologia suburbana.

 

 

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Comentários recentes

  • Eremita

    Bom link. Obrigado.

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    psiquiatra atento18 de Setembro de 2019 às 14:24O ...

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    Não sei de onde tiraste essa ideia. Ontem, logo de...

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    Sabes que muita gente está perfeitamente convencid...

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