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11
Fev17

Fausto também dá a cara

Eremita

Fausto.jpg

Ao contrário do Judeu, Fausto é um puro produto da minha imaginação. Esta criatura surge mencionada pela primeira vez num Quo vadis (a série do metadiscurso) de Janeiro de 2010, em que revelo vontade de criar no Ouriquense "um braço politicamente armado". A personagem é um citadino que, como eu, se instalou no campo e teria características do Pessoa empreendedor e outros traços de Bouvard e de Pécuchet. Há seis anos, planeava uma personagem menos estúpida do que os dois franceses, "mas apenas por chauvinismo - ou então porque Flaubert era infinitamente mais inteligente do que eu e só o génio ser capaz de criar o seu contrário". Em seis anos, sendo verdade que Fausto quase não apareceu, uma frase bastou para o distinguir das outras figuras do Ouriquense, que em 2012 se pronunciaram sobre o dia de São Valentim: "Entre o amor e o controlo dos meios de produção, o alentejano não pode hesitar". Fausto assinou apenas um texto na coluna Contra Lisboa, em Maio de 2011, intitulado "Uma Solução para as Desigualdades Sociais", em que propõe - creio que com uma originalidade que vai beber ao jogo Monopólio  - uma ritualização do capitalismo a partir de um tecto salarial de 10 000 euros. Apesar da aura de empreendedor, até hoje, no Ouriquense, Fausto apenas tentou desenvolver duas ideias. A primeira foi um projecto editorial que não chegou sequer à edição zero, cujo insucesso Fausto atribui a uma qualquer justiça divina que o puniu por ele ter traído o voto popular ao manipular a sondagem para o nome da revista; Fausto já me garantiu que quer "relançar" [sic] a revista e, desta vez, o nome não será plebiscitado, pois já foi escolhido: "A Grande Ogiva do Sul", palavras pela primeira vez combinadas por Hernâni Lopes, que foi economista, embaixador e ministro das finanças. A segunda ideia foi criar perto de Ourique um cemitério que fosse um montado. Escrevi então (versão revista e aumentada): "Ourique ficaria com o maior cemitério do território nacional e ali seria sempre Primavera, pois Fausto está seguro da existência de uma variedade de trigo rasteirinho que está verde e espigado todo o ano. Em qualquer altura do ano uma parte da seara estaria a ser ceifada, para que os pequenos roedores e répteis ficassem desprotegidos e as águias de asa redonda nunca abandonassem aquele céu, de resto também rico em planadores, asas delta, balões de ar quente e até parapentes vindos de lugares longínquos, como a serra de Monchique, o castelo de Marvão e a pousada de Palmela, porque os estreitos caminhos serpenteantes que ligavam os sobreiros-jazigo de família desenhariam o mais belo dos labirintos, quase hipnótico quando vistos das alturas, tornando-se aquele aquele espaço aéreo um local de culto muito estimado pelos praticantes da aeronáutica, nunca invadido por máquinas ruidosas e drones. Veremos então se Fausto confirma em 2017 o que andou a prometer nos últimos anos. E talvez se esclareça de uma vez por todas se Fausto é o homem que aparece nos sonhos de toda a gente. Não que eu acredite em arquétipos, pero que los hay, los hay. Ou não

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