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09
Fev20

A eutanásia e o catolicismo descafeinado


Eremita

1389664.jpgfonte

Nenhuma vida vale mais do que outra. Nenhuma vida vale menos. A vida dos fracos vale tanto como a dos fortes. A vida dos pobres vale o mesmo que a dos poderosos. A vida dos doentes tem um valor idêntico à vida dos saudáveis. Passar a ideia de que há vidas que, em determinadas situações, podem valer menos do que outras é um princípio que conflitua com os valores universais que nos regem. 10 RAZÕES CIVIS CONTRA A EUTANÁSIA, José Tolentino Mendonça

Não tenho uma posição definida sobre a eutanásia. Felizmente, a vida nunca me obrigou a pensar a sério sobre um tema tão delicado e tenho preferido acompanhar esta polémica lendo em vez de pontificar com textos tão cheios de páthos e ódio que ficamos com as mãos peganhentas mesmo quando os lemos no monitor. Creio que a história de Ramón Sampedro (descrita no filme Mar Adentro) é um bom argumento a favor da eutanásia mas que a percentagem de mortes por eutanásia na Holanda (4%) é um bom argumento contra. Vejo a condenação moral do suicídio como um valor muito estimável, se entendido como uma barreira não intransponível mas que desencoraja o acto. Este efeito prático da condenação moral do suicídio tem um paralelo óbvio com um dos principais argumentos para se proibir a pena de morte (a irreparabiliade de um eventual erro judiciário) e não me parece que argumentar com um q.b. de utilitarismo ou sentido prático seja uma cedência. De resto, torna a discussão mais lúcida e honesta do que as declarações grandiloquentes que são comprovadamente falsas.

É evidente que as sociedades e os indivíduos não atribuem o mesmo valor a todas as vidas, dependendo da idade, da proximidade (inclusive a geográfica), do estado de saúde, do número de dependentes, da patente militar, do percurso de vida da pessoa cuja morte avaliamos ou das circunstâncias da morte, entre tantas outras razões. O argumento do cardeal Tolentino, além de inepto e de passar ao lado da discussão sobre a eutanásia, nem parece sequer ser útil enquanto princípio orientador para resolver dilemas, pois soa a um convite à inacção quando apenas uma de duas vidas pode ser salva, o que não traz qualquer tipo de conforto aos que ficam e podiam ter alterado o rumo dos acontecimentos, ou tem o efeito contrário, como o de dar paz a quem não a merece (pensemos num pai que não deu a sua vida pela do seu filho).

Recuperando a ideia central dos actos irreversíveis, lembre-se que a Igreja produziu muito pensamento sobre o arrependimento e talvez fosse mais interessante aos seus líderes encontrar argumentos contra a eutanásia dentro do corpo doutrinário do catolicismo do que intervir num registo envergonhado que parece estar condicionado pelo trauma de duas grandes derrotas políticas recentes (a da interrupção voluntária da gravidez e a do casamento entre pessoas do mesmo sexo). Enfim, digo eu, que ainda sou do tempo em que os padres não nos davam más razões civis mas belas e úteis parábolas. 

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