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OURIQ

Um diário trasladado

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17
Abr17

Epifanias da paternidade


Eremita

Primeiro quinquénio

[actualização permanente]

 

Uma das poucas virtudes da mediania é a capacidade que nos dá de generalizar com grande grau de certeza a partir da experiência individual – nisto, somos superiores aos génios. Só por isso me parece que não erro ao ter elegido como primeira grande epifania da paternidade a constatação de que o amor por um filho não surge instantaneamente e definitivo no dia em que ele nasce (ou com a primeira ecografia), mas vai crescendo nos primeiros meses de forma tão notória que, se houvesse para as emoções um caderninho equivalente àquele em que vamos registando os valores biométricos do bebé, seria possível distinguir grupos de pais segundo a forma da curva de evolução do amor paterno ao longo do tempo, mas sem se instaurar a opressão do percentil, bastando uma categorização nada normativa:  os pais com amor de tipo sigmóide, exponencial, linear, etc.

 

Não tenho a mesma certeza quanto à segunda grande epifania da paternidade, mas arrisco: é a percepção de que, todos os dias, nos esquecemos da nossa condição de pais. Antes de ser pai, imaginava a paternidade como uma mudança de vida radical, que iria muito além da alteração de estatuto social e rotinas, pois a chegada da responsabilidade maior que um homem normal pode esperar penetraria tão fundo na alma que deixaria no corpo uma marca - não propriamente um estigma, mais algo como um levíssimo zumbido que passaria a acompanhar todos os estados de consciência. Cedo concluí que não é bem assim. Não só não há zumbido nem coisa parecida, como não passo os dias vergado pelo peso da responsabilidade. A creche não me liberta apenas para o trabalho, nem se limita a suspender a responsabilidade parental, parecendo sobretudo enviar-me para o tempo em que não tinha filhas, pois entre as 9 da manhã e as 5 da tarde esqueço que as duas existem, como se para responder bem ao estado de alerta exigido pela presença delas precisasse de recorrer a intervalos retemperadores de descanso absoluto. Este mecanismo é tão eficaz que chega a causar alguns problemas de consciência, pois de manhã, excepto quando as bebés se põem a chorar com os braços esticados a pedir colo, não me custa nada separar-me delas, e ao fim do dia o reencontro não poderia ser mais feliz, o que parece violar a lei da dinâmica das emoções, que as descreve com um saldo nulo. Mas so far, so good

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