Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

21
Nov17

Do snobismo invertido


Eremita

Eu sou um produto, para o bem e para o mal, da escola e da universidade públicas. Nunca andei em instituições privadas. Três dos meus quatro filhos frequentam a escola pública, e a mais nova só não frequenta porque ainda tem cinco anos. Há razões financeiras para esta escolha, pois os filhos são muitos, mas há sobretudo razões de princípio: acredito na importância do ensino público; frequentei-o numa época em que era menos exigente do que hoje e não me dei mal; prefiro que os meus filhos cresçam longe das bolhas elitistas (sem desprimor) que são os melhores colégios privados; acho até que certas limitações próprias da escola pública têm vantagens em termos de autonomia e de resiliência (se os pais desempenharem bem o seu papel); e prefiro investir o dinheiro que poupo na mensalidade dos colégios em actividades extracurriculares, ou a viajar com os miúdos para fora do país nas férias do Verão ou da Páscoa, para ganharem mundo.

Este primeiro parágrafo serve dois objectivos: demonstrar que sei do que falo quando falo da escola pública, e tentar afastar o preconceito de que quando critico Mário Nogueira, os sindicatos ou certos privilégios da classe estou a atacar cada professor em particular. João Miguel Tavares, Público.

 

Existe ainda um objectivo tácito, ó João: queres mostrar que tens autoridade moral para escrever sobre a escola pública. Não surpreende. Segundo muitos, provavelmente a maioria, quem não tem os filhos numa escola pública perde o direito de escrever sobre o ensino público, tal como quem só frequenta hospitais e clínicas privados não se deve pronunciar sobre o SNS. Esta opinião, absurda se pensarmos na lógica que rege a redistribuição da riqueza através dos impostos numa sociedade coesa, em que um cidadão se deve interessar pela construção de uma ponte que provavelmente nunca usará, resulta de uma pressão social exercida pela esquerda e pela direita, que quando se juntam criam a correcção política mais subtil e eficaz. Quando veiculada pela direita, esta opinião é um ataque ad hominem primário para enfraquecer os políticos de esquerda que têm os filhos nos colégios e defendem a escola pública. Quando veiculada pela esquerda, a ideia parece ganhar substância: é importante a classe média ter os filhos na escola pública, caso contário o ensino público entrará em decadência, dizem eles. Daí a necessidade de se gritar ao mundo que os filhos não frequentam "bolhas elitistas" e o pudor das "elites" nas discussões públicas e colunas de jornal quanto ao tipo de escola onde estudam os filhos. Ora, será que quem propagandeia que tem os filhos no ensino público se revela um cidadão exemplar ou simplesmente um inverted snob? No que me toca, a ideia do risco de decadência devido ao abandono do ensino público pela classe média soa-me demagoga - há estudos? - e hipócrita - havendo escolas públicas e escolas públicas, diz-me em que bairro moras e dir-te-ei se defendes esta ideia, camarada. Em todo o caso, primeiro a família e depois a sociedade é uma "razão de princípio". Será então que posso defender a escola pública e desejar que os meus impostos sejam usados para a melhorar, mas estar disposto a fazer tudo o que estiver ao meu alcance, inclusive escrever um romance histórico, para que as minhas filhas frequentem uma "bolha elitista"?  

 

2 comentários

Comentar post

Pesquisar

Pub e serviços

Screen Shot 2019-04-07 at 17.13.03.png

”Screen

Comentários recentes

  • caramelo

    Tenho quase a certeza que concordo absolutamente, ...

  • Lowlander

    Pois amigo anonimo... vamos la a ver entao:Mesmo d...

  • Anónimo

    "A Humanidade consome proteina animal porque esta ...

  • caramelo

    Já tenho visto por aí convocatórias para comer bif...

  • Lowlander

    Pontos previos:1 - O Henrique Pereira dos Santos e...

Links

WEEKLY DIGESTS

BLOGS

REVISTAS LITERÁRIAS [port]

REVISTAS LITERÁRIAS [estrangeiras]

GUITARRA

CULTURA

SERVIÇOS OURIQ

SÉRIES 2019-

IMPRENSA ALENTEJANA

JUDIARIA

Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2016
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2015
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2014
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2013
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2012
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2011
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2010
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2009
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2008
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D