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OURIQ

Um diário trasladado

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03
Mai18

Da presciência de Michel Houellebecq


Eremita

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Michel Houellebecq publicou Soumission pouco antes do atentado islamita, de 7 de Janeiro de 2015, na redacção do Charlie Hebdo. O livro é uma ficção política em que a França, pela via democrática, em 2022 fica nas mãos de Mohammed Ben Abbes, o carismático líder do partido Fraternité Musulmane. Dada a proximidade temporal e geográfica dos eventos, seria impossível não os relacionar; depois do atentado, Houellebecq viria mesmo a suspender a promoção do livro, já então um bestseller. Pelas distâncias temporal e geográfica, a associação de um outro livro do francês a um outro atentado é menos óbvia, mas não terei sido o primeiro a fazê-la. Refiro-me ao romance Extension du Domaine de la Lutte, de 1994, e ao recente atentado misógino nas ruas de Toronto, em que Alek Minassian atropelou uma série de peões, matando 10 e deixando 15 feridos. Este não é o primeiro atentado de inspiração misógina (em 2014 houve outro, nos EUA), mas foi o que trouxe à atenção de todos a comunidade online Incel (“involuntarily celibate”), um fórum em que homens (heterossexuais) com frustrações sexuais se entregam a uma (literalmente) aterradora terapia de grupo. Como se não bastasse terem sido durante milénios vítimas de violações e outras formas de violência que persistem, as mulheres têm hoje de lidar com a probabilidade nova (ainda que  infinitesamente baixa) de virem a ser  vítimas de um terrorista radicalizado por uma ideologia misógina em que o sexo é entendido como um direito. Escreveu Houellebecq, em 1994:

 

Décidément me disai-je, dans nos sociétés, le sexe représente bel et bien un second système de différenciation, tout à fait indépendant de l'argent ; et il se comporte comme un système de différenciation au moins aussi impitoyable. Les effets de ces deux systèmes sont d'ailleurs strictement équivalents. Tout comme le libéralisme économique sans frein, et pour des raisons analogues, le libéralisme sexuel produit des phénomènes de paupérisation absolue. Certains font l'amour tous les jours; d'autres cinq ou six fois dans leur vie ou jamais. Certains font l'amour avec une dizaine de femmes; d'autres avec aucune. C'est ce qu'on appelle la "loi du marché". dans un système économique où le licenciement est prohibé, chacun réussit plus ou moins à trouver son compagnon de lit. En système économique parfaitement libéral, certains accumulent des fortunes considérables; d'autres croupissent dans le chômage et la misère. En système sexuel parfaitement libéral, certains ont une vie érotique variée et excitante; d'autres sont réduits à la masturbation et à la solitude. Le libéralisme économique, c'est l'extension du domaine de la lutte, son extension à tous les âges de la vie et à toutes les classes de la société. de même, le libéralisme sexuel, c'est l'extension du domaine de la lutte, son extension à tous les âges de la vie et à toutes les classes de la société..." Extension du domaine de la lutte

Não é a primeira vez que cito esta passagem, porque hoje leio sobretudo em inglês e tendo a notar a ausência da referência ao francês, que seria apropriada e justa, e também porque para alguém vindo das ciências, com algumas noções de selecção sexual, o fenómeno descrito por Houellebecq é muito mais biológico do que social e, nessa medida, pouco surpreendente. A desigualdade descrita pela distribuição de Pareto, em que uns poucos, em sociedades liberais, meritocráticas e geneticamente diversificadas, detêm quase tudo e os restantes o pouco que sobra, seja dinheiro, notoriedade, oportunidades e recursos profissionais, beleza, talento ou sexo, é a grande fonte de ressentimento. Para os intelectuais, sendo Jordan Peterson apenas a rising star planetária mais recente, trata-se de um autêntico recurso renovável para explorar, pois nenhum sistema político consegue erradicar esta desigualdade de forma satisfatória e suspeito que nenhum será alguma vez inventado. Enfim, Houlebecq mostra-nos que a receita para a presciência é escrever sobre as evidências que preferimos ignorar. A propósito, [spoiler warning: o resto da frase é em letras brancas] no romance que cito a personagem principal não mata ninguém, suicida-se. E ainda há quem - como o pateta do Frédéric Beigbeder - descreva Houllebecq como um niilista sem preocupações sociais, quando é evidente que o escritor é, sobretudo, um conservador. 

 

 

 

 

4 comentários

  • Sem imagem de perfil

    caramelo

    03.05.18

    Zut alors, se houve já duas almas que se irmanaram na mesma interpretação, por alguma razão foi! Eu não interpretei o Houellebecq, mas a realidade sobre a qual ele fala e essa realidade não é tão imaginativa que permita as masturbações intelectuais do tipo, de um género extremo, aliás, tão patológico e por isso tão estatística e socialmente irrelevante como o fenómeno do InCel. Que, aliás, a única coisa que tem de novo é permitir a irmandade em rede da tara, porque pobres diabos sexualmente frustrados e vingativos sempre existiram.
    (olha, esqueci-me de te dizer, mas ontem ainda estava no Guardian um artigo interessante sobre o QI e as raças. Não sei se traz alguma coisa de novo, se calhar não. Perdi o link)
  • Imagem de perfil

    Eremita

    03.05.18

    A única coisa que tem de novo foi ter gerado já dois atentados terroristas em que a motivação ideológica é o ódio às mulheres. Apesar da improbabilidade estatística, se isto não é relevante do ponto de vista social...

    Obrigado pela dica. Neste momento já pesquei mais artigos do que alguma vez terei tempo de ler, mas há um espírito de coleccionador que se manifesta nas pesquisas bibliográficas... e às vezes até na bibliografia que se apresenta, infelizmente.
  • Sem imagem de perfil

    caramelo

    03.05.18

    Sim, certo. Mas eu não sei, ninguém sabe, se o Jack o Estripador, por exemplo, não teria o mesmo problema.
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