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13
Jun19

Constâncio e o "uncanny valley" da expiação


Eremita

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No Circulatura do Quadrado, a partir dos 9' 30'', Vitor Constâncio levou mais uma tareia. No grupo das figuras públicas sem problemas passados, presentes ou futuros com a justiça, bancos ou o fisco, nem fama de bater na mulher, e, em particular, no subgrupo das pessoas consensualmente tidas por sérias, não me lembro de uma humilhação pública tão intensa. Lobo Xavier descreveu Constâncio como um mentiroso e afirmou que viu "tudo nas suas atitudes, menos um homem grande". Pacheco Pereira  disse essencialmente o mesmo. Salvo erro, Constâncio só foi até agora defendido por Francisco Assis e Valupi, o primeiro num registo de profissão de fé e o segundo a lembrar uma eventual mentira original na notícia do Público, que interpretou o aval dado pelo Banco de Portugal ao pedido de Berardo para reforçar a sua posição no BCP com uma autorização do empréstimo da CGD, que já teria sido concedido. Não é um detalhe, obviamente,  como se percebe facilmente lendo os comentários de Constâncio à notícia do Público e a resposta do jornal. Creio que Constâncio terá toda a razão em se sentir caluniado pelo Público se não se confirmar que a execução do crédito da CGD estava "contratualmente condicionada ao parecer positivo do supervisor", o que me parece essencial esclarecer para formar uma opinião definitiva sobre este caso. Essencial e suficiente, pois a tese da conspiração que teria Constâncio como um dos vértices de um triângulo socialista é demasiado descabelada para ser levada a sério. Também me parece acertado o reparo de Constâncio sobre uma "falácia histórica", pois em 2019 é muito fácil falar de cátedra sobre o que correu mal em 2007. É verdade que Constâncio foi inábil nas respostas iniciais, talvez fruto do seu perfil mais técnico que político, e não terá ajudado a imagem que tinha deixado há 10 anos aquando da comissão de inquérito ao caso BPN. Mas até serem conhecidos todos os detalhes do contrato de crédito não se pode descartar a hipótese de que Constâncio está a ser usado como o bode expiatório para aliviarmos a frustração com a externalização para os contribuintes dos riscos de operações financeiras desastrosas.

Na versão bíblica original, o bode expiatório era mesmo um bode. Com os séculos, à expiação dos pecados o termo juntou a dimensão do ajuste de contas. Para a expiação, um bode funciona bem. Mas o ajuste de contas não pode ser ritualizado, a vítima tem de ser uma pessoa. É essa a sorte de Berardo e a tragédia de Constâncio. Como Berardo não é um bode, não serve à expiação ritualizada, mas como é novo-rico, desbocado, inconveniente, sem discurso e sem maneiras, não se parece com as elites do sistema. Assim, quanto ao seu potencial como bode expiatório, Berardo está num uncanny valley ladeado por um pico onde pasta o bode e outro pico onde Constâncio joga as mãos à cabeça. O uncanny valley é um conceito de estética muito usado na robótica que descreve a nossa resposta emocional em função da semelhança de um objecto a um ser humano. Representações estilizadas como bonecos de desenhos animados suscitam uma reacção empática e o mesmo sucederá com humanóides perfeitos que deixaremos de conseguir distinguir de seres humanos de carne e osso, mas humanóides menos perfeitos causarão algum desconforto ou repulsa, formando o tal "uncanny valley".  Berardo nunca nos satisfará como bode expiatório.

 

 

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