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Ouriquense

09
Jul18

Como e quando explicar o "efeito de Mateus" às criancinhas?

Eremita

A propósito deste artigo, que o Vasco me indicou, fiquei a pensar em qual seria a melhor altura e a forma adequada de explicar o "efeito de Mateus" às crianças.  "Ao que tem dar-se-á e terá em abundância. Mas ao que não tem até o que tem lhe será tirado". Há várias formulações equivalentes: a distribuição ou princípio de Pareto (para os mais elitistas), a regra 80-20 (para as pessoas mesmo muito aborrecidas), a canção "The winner takes it all", dos ABBA (para os mais descontraídos). Pergunto: haverá algum primata por socializar que aceite o efeito de Mateus? Duvido.

Já conhecia as experiências de um primatologista holandês com macacos, a propósito de como surge e se manifesta a sensação de ter direito às bananas que o vizinho recebeu, e também a teoria do desejo mimético, de René Girard, ciência experimental e teorização que o meu posterior convívio diário com gémeas monozigóticas ("verdadeiras")  me levaria a considerar como triviais, pois é evidente que os bebés e até as crianças possuem um sentido de injustiça apuradíssimo e uma capacidade de reivindicação que depois se perde ou atenua, preservando-se apenas nos adultos num contexto de deformação profissional (entre advogados, sindicalistas e políticos, por exemplo) ou então em quem sempre esteve muito acima da média quanto a estas características de personalidade, como aquelas pessoas que passam uma vida a mandar a comida para trás em restaurantes - um acto que nunca pratiquei e me fascina, devo confessar. A pergunta é: em que altura nos vergamos ao efeito de Mateus, que passamos a aceitar como inevitável e inquestionável, sob pena de blasfémia contra o sacrossanto princípio da meritocracia quando resolvemos pôr em causa a ordem das coisas? Não pretendo entrar em considerações classistas a apontar para teses de conspiração ou até nietzscheanas, isto é, sobre a indução e domesticação do ressentimento e a influência destes processos na estrutura das sociedades. A dúvida é mais pueril e de ordem prática: será que explicar o efeito de Mateus imuniza as crianças contra os efeitos da perversa máquina de socialização, dando-lhes uma resiliência acrescida ou um distanciamento que lhes protegerá o âmago ao longo da vida quando as comparamos com as crianças que não são nunca tiradas da bolha em que o mundo é cor-de-rosa e a meritocracia pura? Ou será contraproducente, por antecipar nas crianças o aparecimento do cinismo conformista que geralmente só surge no adultos de meia idade? A TSF, na sua rubrica sobre pais e filhos, podia entremear temas deste calibre com os conselhos sobre protectores solares. É que eu penso muito nestes assuntos e até já de modo pavloviano sempre que como uma banana, fruto muito apreciado no nosso lar. 

 

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