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Um diário trasladado

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Jul18

Cinco Reis Muçulmanos para Dom Afonso Henriques?


Eremita

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Como disse antes: é impossível alterar o passado. Mas podemos alterar o presente. Mas para alterar o presente precisamos compreender e reconhecer o passado. Como maneira de reconhecer a história complexa e interrelacionada de Portugal e África, e da própria escravatura, e para contribuir para a criação de uma narrativa arqueológica das futuras gerações, faço uso de uma sugestão de Linda Heywood, historiadora e professora na Universidade de Boston, EUA. Numa palestra sobre o seu livro Nzinga de Angola. A Rainha Guerreira de África (editado em Portugal pela Casa das Letras, 2018) na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa no último dia 10 de maio, a historiadora sugeriu que Lisboa tivesse uma estátua de Rainha Njinga. Creio que a sugestão deve ser considerada, uma vez que esta figura feminina africana representa a complexidade da história da escravatura. Além de ter rompido estereótipos de género ao liderar verdadeiros exércitos, Rainha Njinga possuiu escravos e também os vendeu, tendo assim participado no tráfico de escravos. No entanto, também defendia que havia limites de quem poderia ser ou não ser escravizado e também lutou contra os colonizadores portugueses. No fim da sua vida, converteu-se ao cristianismo e fez as pazes com Portugal. Quem sabe se a materialização de uma Rainha Njinga no espaço urbano de Lisboa nos ajude a despir-nos de uma visão maniqueísta da escravatura? E quem sabe se, ao despir-nos de uma visão maniqueísta da escravatura, conseguimos reconhecer melhor o passado? Cláudia Silva, Público

Ainda não sujeitei esta proposta à tortura da lógica que devemos aplicar a qualquer opinião, nomeadamente as opiniões originais. Foi a originalidade o que me atraiu. Em vez de um revisionismo histórico que nos obrigue a tirar dos pedestais todos os homens brancos que se destacaram no nosso passado mas praticaram actos que hoje condenamos, teríamos um revisionismo histórico que daria pedestal a todos os protagonistas de outras etnias que também se destacaram, independentemente de terem igualmente praticado actos hoje censuráveis. A ideia, se a percebi bem, é manter os critérios de selecção e alargar a base de recrutamento, adoptar um All Bastards are Equal Act. Assim, em nome de uma visão da História adulta, isto é, que reconheça a realpolitik, mas também multicultural, veríamos materializada em alguma rotunda ou até numa praça uma estátua da rainha Njinga, que também teve e vendeu escravos. Não sei sinceramente o que pensar. Levada ao extremo, a política identitária cria absurdos - se cada grupo identitário se for fragmentando em subgrupos até à atomização, isto é, até ao indivíduo, cada um de nós ganha o direito a propor a sua estátua (en passant, que não demore a estátua do Vitor Silva Tavares!), e podemos vir a ter mais estátuas em Lisboa do que habitantes ou mesmo turistas. Mas argumentar com slippery slopes improváveis é uma péssima forma de discutir, sobretudo a política, que é a arte do possível, do entendimento,  da ponderação. Por isso, convoquei o Fausto, que já está a preparar um relatório sobre as vantagens e os perigos de colocarmos junto à estátua do Dom Afonso Henriques, alusiva à Batalha de Ourique*, uma estátua dos cinco reis mouros que ele derrotou ou então - estamos atentos, podemos sempre inovar a inovação - de um elemento anónimo da infantaria mourisca. Aguardemos. 

 

* [paráfrase]: Discutimos Deus e a virtude. Discutimos a pátria. Discutimos a autoridade e o seu prestígio. Discutimos a família e a sua moral. Discutimos a glória do trabalho e o seu dever. Mas não pomos em causa que a batalha de Ourique ocorreu perto da actual vila de Ourique e quem o fizer será imediatamente censurado.

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