Chegar aos noventa lúcido
Eremita
Por ter sido um pai tardio e a minha mulher ser mais nova do que eu, como se já não lhe bastasse o vigor de ser mulher, gostaria muito de ultrapassar largamente a minha esperança de vida. Essas são as principais razões para este desejo, que talvez não precise de grandes justificações. Há uma outra razão, infinitamente mais pequena, mas que se destaca do ruído de fundo da indiferença: dar uma segunda oportunidade a João Tordo. Li, há alguns anos, o livro Hotel Memória, uma prosa de noviço que me afastou do autor. Nos últimos tempos, tenho ouvido e lido, aqui e ali, que Tordo amadureceu e fez-se escritor. Mas é verdade que por vezes a crítica não é nada esclarecedora e chega a ser contraproducente. Tordo não galga lugares e, neste momento, a estimativa mais simpática diz-me que o lerei de novo se chegar aos 109 anos.
