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OURIQ

Um diário trasladado

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20
Jan18

Canta-me histórias


Eremita

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Chagall

 
    - Ide todos à merda!   
   e foi quando os moralistas. Falavam do comportamento humano na família na política nas relações entre os homens, dos pecados circunstanciais para todas as situações e das virtudes, dos benefícios da fornicação livre e à tripa forra e do horror dessa fornicação na perversão dos usos e costumes das sagradas normas para a regulamentação da espécie e da dignidade fora da ligeireza e inconsequência dos cães, da regra contra o destempero na fúria unitiva dos sexos desde a lei incompreensível e pré-histórica do incesto ao namoro delicado e retractivo da janela, e da estupidez dos interditos fabricados por convenção humana para codilho dos homens, da dignidade da família com a autoridade graduada por escalões da hierarquia reaccionária espatifada ou da graduação dos escalões mas ao contrário, da sagrada união familiar e do direito temporão à fugitividade como a família piscícola, da criação dos filhos no choco materno e da criação colectiva nas chocadeiras eléctricas do Estado, da fidelidade matrimonial e da concepção de fidelidade como uma opressão reaccionária finalmente ultrapassada com o direito intervalar de mudar de cama ou o direito de a ir mudando em certos prazos consoante as necessidades comprovadas pelas estatísticas, da anulação simples do acasalamento com o direito à fornicação avulsa e aleatória, da manutenção da rede das ligações familiares - do direito a baralhá-la como os canídeos, do direito à fabricação de filhos com defeitos de fabrico e da necessidade de apuramento da raça com cobridores profissionais, do direito à vida e à morte, ao respeito e ao insulto, à veneração da velhice e à sua segregação profiláctica, à suavidade compreensiva e à chicotada, à paz e à guerra, ao coração e ao fígado,   
   - Para a puta que vos pariu!                

Vergílio Ferreira, Para Sempre

Só mesmo uma criatura viciada em ideologia é capaz de transformar em retórica abjecta o que seria, à partida, um sensato apelo para que os meninos e rapazes sejam educados no respeito pelas mulheres e sem vícios de desigualdade de género não legitimados por diferenças biológicas. O texto é tão desastrado que até Vitor Cunha, habitualmente um polemista gratuito apaixonado pela sua própria incorrecção política, escreveu um texto crítico pertinente e com um parágrafo de bom senso (dois seria impossível). Segundo os conservadores, sobretudo aqueles de pendor religioso, sequiosos de um ajuste de contas com - dizem eles - a cultura de esquerda hegemónica, os Weinsteins deste mundo são uma consequência directa da revolução sexual dos anos sessenta do século passado, que terá trivializado o sexo e removido as "sagradas normas para a regulamentação da espécie e da dignidade fora da ligeireza e inconsequência dos cães". Esta tese, que pode ser lida em múltiplas formas na imprensa conservadora internacional e foi decalcada para Portugal por Rui Ramos e Raposo, seu discípulo, é um surpreendente combinado de efabulação do passado, causalidade para totós, branqueamento das religiões e incapacidade de reconhecer e atacar sem digressões o âmago do problema. O historiador Rui Ramos e o cronista do Expresso começam por ignorar a cultura patriarcal de outrora, rica em abusos sexuais e soluções pouco respeitadoras da sacralização do sexo e da conjugalidade livre de hipocrisia que Raposo promove, como o sexo com a criada, a iniciação sexual no prostíbulo financiada pelo pai, a amante com casa posta, disponível para o patriarca fazer na cama o que não ousava com a imaculada mãe dos seus filhos, ou a "casting couch culture" de Hollywood, que precede o modus operandi de Harvey Weinstein, remontando às origens da indústria cinematográfica norte-americana. Obcecados com a iconografia do "peace and love", o duo fantástico do conservadorismo liberal luso ignora também aquela que foi a herança mais relevante da revolução sexual: a universalização do uso da pílula anticoncepcional, que em poucas décadas terá feito mais pela emancipação da mulher do que milénios de práticas sexualmente repressivas promovidas pelas diferentes religiões. Quanto à causalidade, Ramos e Raposo emergem como historiadores caricaturais, parecendo que vale tudo, desde que a causa preceda a consequência no tempo; ora, se se toma o estritamente necessário por suficiente, é menos absurda - e igualmente reaccionária - a tese de que a entrada em força das mulheres no mercado de trabalho explica Harvey Weinstein. Enfim... No branqueamento, nomeadamente do cristianismo, Henrique Raposo transcende-se, o que, depois de tantos textos seus de fervor religioso, é notável. Raposo encerra um mistério insondável: não sabemos se promove o catolicismo por oportunismo, pois a defesa dos valores religiosos a contracorrente com a secularização, mas num país onde abundam as instituições católicas, forja um nicho e dá cachet (o Raposo do Expresso e da Renascença seria uma versão católica e bem sucedida do blogger blasfemo Vitor Cunha), se ele é um católico convicto ou se apenas vive subjugado por uma sogra beata e despótica que o lê todos os sábados para lhe cobrar satisfações durante o almoço do dia seguinte. No primeiro caso, teríamos um farsante; nos outros, uma figura trágica. Menos dúvidas há quanto ao entendimento que Raposo faz dos seus leitores, pois só os pode tomar por parvos. 

 

Qando um católico, quase sempre próximo do êxtase, se refere ao Cântico dos Cânticos, ainda que en passant, há motivo para desconfiarmos. Esse texto, um hino ao amor e sexualidade no casamento, verdadeira preciosidade entre todas as composições bíblicas pelo erotismo de algumas passagens, apesar dos seus quase 3000 anos é de uma adequação notável ao modo como crentes e laicos hoje idealizam o casamento. Sem desenvolver as apreciações estéticas (considero Salomão, esse sábio dos sábios e referência da cultura universal, autor de "Teus peitos são como cachos de uvas", um poeta menos capaz do que o cançonetista de reputação regional que escreveu Espalhem a notícia), convém frisar que o Cântico dos Cânticos pertence ao Antigo Testamento e que só uma interpretação revisionista o reconcilia com a forma como, pelo menos desde Santo Agostinho, a religião católica entende o sexo, isto é, enquanto veículo de propagação hereditária do "pecado original" que foi a desobediência de Adão e Eva quando ainda viviam no Paraíso, a menos que a ideia seja usar o Cântico dos Cânticos apenas como veículo de publicidade enganosa, o que parece ser frequente. O problema do leitor que concorda com o fanático Agostinho e recusa o circunspecto Pelágio (teólogo contemporâneo do primeiro e seu adversário, para quem o homem é livre e responsável pelos seus actos) não está na defesa da sacralização do sexo pela conjugalidade, porque mesmo um ateu consegue investir o sexo conjugal de uma transcendência que a infidelidade mata e arranjos diferentes da monogamia, como a "relação aberta", a poliandria, a poligamia e o poliamor, diluem até concentrações homeopáticas. O problema está em justificar o que toda a evidência empírica indica ser contraproducente, isto é, um entendimento radical do sexo fora do matrimónio como pecado que devemos reprimir a qualquer custo, o que, entre os mais jovens, sobretudo nos EUA, é um estímulo à prática do coito anal e oral como alternativas supostamente menos penalizadoras do que o sexo com penetração vaginal, ou então, entre aqueles que, à custa de sessões de onanismo, acalmam com sucesso a tentação e chegam virgens ao casamento, meio caminho andado para uma incompatibilidade sexual no matrimónio, frustrante e potenciadora de infidelidades futuras. Naturalmente, para um ideólogo como Raposo isto não é razão que chegue para ele se abster de promover implicitamente a abstinência sexual entre os jovens, tal como a Igreja, por alegada consistência teológica que até os intelectuais católicos mais secularizados gostam sempre de realçar, pouco se importa de, ao não promover o uso do preservativo, ter contribuído para que África seja hoje um continente minado pela SIDA. Estas evidências deveriam bastar para não se tentar restaurar a moral religiosa neste período dominado por escândalos sexuais. O sexo é um problema de resolução difícil deixado pela Biologia. Mas o sexo regulamentado pela religião é um problema muito maior. 

 

Não precisamos da moral religiosa. Os escândalos sexuais de que vamos tendo conhecimento são muito menos um problema de erotismo ubíquo e promiscuidade legitimada pela cultura do que problemas de abuso de poder. É só isso que está em causa. Que o escândalo tenha rebentado agora diz mais do progresso nos direitos das mulheres do que de uma suposta regressão moral. Há, por isso, razão para optimismo (sem entrar na discussão do enorme potencial de descarrilamento do movimento #MeToo, porque para esse assunto podem ir lendo o Franciso José Vieigas). Se não é certo que possamos falar de evolução no caso das religiões, as sociedades ocidentais têm progredido nas suas formas de organização política, social e jurídica. É isso que conta para resolver abusos de poder socioeconómico, cultural ou físico, que sociedades ditatoriais podem promover e perpetuar, mas que em sociedades democráticas e abertas tenderão para o anacronismo, ainda que muito mais lentamente do que o fervoroso Raposo antecipa. Este combate faz-se sem que deixemos que um sacerdote qualquer, das religiões velhas ou dos movimentos novos, volte a pôr a tampa na panela das pulsões sexuais, pois já se sabe no que deu e no que voltaria a dar. O próprio Raposo o reconhece implicitamente, ao endereçar a sua cartinha aberta aos pais de meninos e rapazes e não a uma sumidade, mas - oh boy -  a tralha ideológica, a revelação involuntária de preconceitos, a bazófia constante por, ao jeito de um cultural warrior, se assumir como crente, e a desconcertante lata com que aborda - digamos, avant la lettre - os pais dos abusadores em potência das suas filhas, num engenhoso exercício que cria uma iusão de superioridade moral, faz do texto um Raposo vintage, horripilante e ridículo. Perante este seu contributo e o de Rui Ramos, só por dever de urbanidade não termino como a personagem de Vergílio Ferreira inicia a citação, mas socorro-me também de uma referência ao mundo animal, sem pretender - seria tão anos 70 - implicar a teoria da evolução no estado das coisas, mas apenas exprimir um desejo: Henrique e Rui, ide, ide dar banho ao cão.

 

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