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OURIQ

Um diário trasladado

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Um diário trasladado

03
Abr18

Cancro


Eremita

Todos temos os dias contados, mas uns mais do que outros. Alguém já deve ter comparado autobiografias escritas durante uma reforma saudável com aquelas feitas no contra-relógio de uma doença terminal, mas de momento só me ocorre uma pergunta: como não se aborrecem os primeiros e como lidam os segundos com um sentido de urgência insuportavelmente intenso? 

6 comentários

  • Sem imagem de perfil

    caramelo

    04.04.18

    Há as autobiografias, as memórias e ainda existem os diários. Nas primeiras, as autobiografias, é suposto que conheçamos os avós visigodos do biografado, o que se torna um bocado enfadonho, se os avós tiverem sido meros servos da gleba. Felizmente, cada um deles conquistou pelo menos um castelo. E isto agora fez-me lembrar a saga do pobre Gonçalo Mendes Ramires, na Ilustre casa de Ramires, do Eça. Mas as memórias, porque se libertam das datas, dão de facto melhores peças literárias. De qualquer forma, acho que o talento é mais útil para inventar memórias e biografias. O Gabo inventou dezenas de biografias num só livro. Houve um outro que transformou um homem num gafanhoto e etc. É para isso que se inventou o talento literário; para acrescentar mundo. Depois, como as auto-biografias ou memorias não são um exercício de masoquismo ou de confessionário, não é de esperar uma exagerada honestidade, salvo nalguns raros casos. Em regra, toda a gente se preocupa com o seu legado. Só é razoável exigir-se que não se invente; esse é o limite da honestidade. Lá o que se esconde... Também não dou grande valor às autobiografias escritas por escritores, até porque os escritores não são necessariamente os que têm uma vida mais interessante, apenas os que a sabem contar de forma mais elegante.
    Uma vez comprei na feira da ladra uma agenda, com um diário. Uma autobiografia em estado bruto, que também é um retrato de uma certa sociedade, numa determinada época antiga. É o tipo de coisas que estão na primeira linha das coisas salvas num incêndio, juntamente com as fotografias e a carteira, não sei bem por que ordem, felizmente, mas houve ali algures no tempo uma quebra neste ciclo e o diário acabou na feira da ladra, ao peso. Pelo preço, aquela vida pesou muito pouco para quem o pôs à venda. Mas lá comprei e, no que depender de mim, quebra-se aqui o ciclo do mercado, nem que tenha de pegar fogo ao diário. Já não tendo utilidade, a coisa mais digna é triturá-los ou incinerá-los, como fazem os americanos com as suas bandeiras estragadas, para lhes mostrar respeito. Mas é para dizer que um diário assim é mesmo a apoteose do diário, da autobiografia e das memórias, tudo junto.
  • Sem imagem de perfil

    RFC

    04.04.18

    «Nas primeiras, as autobiografias, é suposto que conheçamos os avós visigodos do biografado, o que se torna um bocado enfadonho, se os avós tiverem sido meros servos da gleba.», ...?

    Caramelo importas-te de desenvolver este naco de, digamos, prosápia e bastante (composto por quatro quintos de bazófia, e um quinto de linhagem e de cagarolas mas em doses iguais)?

    Nota. E, como estamos algures em 2018 se bem me lembro, quais os livrinhos de epistemologia para as ciências sociais que andas a ler? Coisas maradas com origem nos blogues nacionalistas, absolutistas, monárquicos, na wiki-wiki ou são outras coisas sacadas da net?
  • Sem imagem de perfil

    Dom Caramelo de Logroño

    04.04.18

    O antepassado de vossa excelência foi aquele desgraçado arqueiro do Robin dos Bosques que errava o alvo por cem metros, característica que foi passando e aumentando de geração em geração e atingiu o auge precisamente em vossa excelência, que consegue disparar à retaguarda num ângulo perfeito de 180 graus. Ora, leia lá vossa excelência outra vez o que escrevi e veja se se pode concluir com razoabilidade que eu dou essa importância desmesurada às linhagens, ou que ando por esses blogues?
  • Sem imagem de perfil

    RFC

    04.04.18

    Caramelo, se a questão é ler por ler não estou nessa

    Nem estou numa de começar a ler e saltitar, ao estilo de surrealizar por aí. Se calhar por defeito, leio do princípio, ná não me parece!, e acabo por desinteressar-me de comentários mais longos.

    Ora, neste caso, aspei um bom naco de prosa, do princípio ao fim, e perguntei-te isto:

    «Caramelo importas-te de desenvolver este naco de, digamos, prosápia e bastante (composto por quatro quintos de bazófia, e um quinto de linhagem e de cagarolas mas em doses iguais)?»

    Nota da nota, mas de agora. Respondeste à nota final, suficientemente picante eu sei (mas confesso que também interessado pela forma eu sou e, eventualmente por isso, coloco-a temperadinha no fim). Aparentemente somos leitores diferentes, repara: eu leio do princípio, paro, comento e desinteresso-me. Tu, que queres que os leitores sejam, e que eu seja, perfeito/s, lês tudinho mas não é suficiente. Presumo que, se fosses um crítico operático, comentarias apenas o finale.

    ______

    E a resposta, é?

  • Sem imagem de perfil

    caramelo

    04.04.18

    É.
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