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OURIQ

Um diário trasladado

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02
Jan15

Botões assertoados


Eremita

Certa noite, há muitos anos e bem longe de Ourique, um determinado encadeamento de improbabilidades agora irrelevante gerou um par de pulsões - desejo e sentido de responsabilidade - que me levou a utilizar os preservativos de um homem com bem mais de 2 metros de altura. Elementos do sexo masculino com bem menos de 2 metros não terão dificuldade em imaginar a ansiedade que o episódio gerou, então devidamente neutralizada por dois momentos de comic relief, primeiro diante da companheira daquele homem, que foi quem gentilmente e sem ponta de perversão me cedeu os preservativos, e depois com a rapariga que provocou o episódio. Este exemplo extremo não deixa de ser representativo das inibições que podem surgir quando dois homens se vêem obrigados a partilhar roupa, uma situação que não foi ainda alvo da atenção que merece por se pensar que partilhar roupa é coisa de mulheres. Trata-se de um erro que tem adiado a elaboração da taxonomia da partilha de roupa masculina, passível de incluir a partilha intergeracional passiva de tipo fraterno (a roupa que passa do irmão mais velho para o irmão mais novo por iniciativa parental), a partilha intergeracional activa (o filho ou neto adolescente que adopta uma peça de roupa do pai ou do avô), a partilha amical (o amigo bem agasalhado que empresta um casacão ao amigo enregelado), a partilha em contexto desportivo (a troca de camisolas para acerto de cores entre as duas equipas que se defrontam) ou a partilha bíblico-assistencialista ("necessitei de roupas, e vocês me vestiram..." - Mateus 25:36), entre muitos outros casos que se multiplicariam em subtipos e fusões de modo a captar todas as diferentes gradações e cambiantes do fenómeno. Vem isto a propósito de ontem eu ter experimentado uma peça de roupa de um indivíduo que visitava o Judeu.

 

Era um casaco assertoado, à marinheiro de alguma marinha - creio que a norte-americana - e parecido a uns que se usavam muito em Paris nos anos noventa, quando lá morei; deve vir daí o meu tropismo por esses casacos ou então o responsável é o Corto Maltese. Enfim, como quase sempre acontece entre homens, a roupa em si pouco conta nestas histórias; podia ter sido um par de botas, um chapéu, um cachecol ou um anorak - e friso que uso "anorak" no sentido genérico, sem me referir a uma marca em particular.  Talvez esta seja uma das diferenças de género, pois faria pouco sentido descrever um episódio de partilha de um vestido sem referir o nome da casa, o modelo, as cores, os padrões e talvez até as influências. Adiante. O conhecido do Judeu impressionava. Parecia ter sido desenhado numa escala apenas ligeiramente superior à usada para a maior parte dos outros mortais, ficando a salvo do gigantismo, que nunca produz belas figuras. O que ele despertava era pura inveja, com as suas proporções harmoniosas, quem sabe se resultado de subtis ajustes alométricos para que nos parecesse perfeito quando contemplado do nosso ângulo de visão algo submisso. Como se não bastasse, estivémos o tempo todo na sala do Judeu, que nem sequer é particularmente soalheira, sem que ele tivesse tirado os óculos escuros, plantando na minha cabeça a insistente pergunta sobre a cor dos seus olhos. Esta homofilia latente teria sido facilmente dissipada por uma conversa de circunstância, caso o Judeu não se tivesse lembrado em voz alta que, numa das noites frias em que o acompanhei nas experiências sobre a máquina do movimento perpétuo, lhe falei de que me fazia falta um casaco daqueles. Era verdade, ficou-me na memória a resposta que então ele me deu: "Se Ourique já tem um surfista de barragem, também acolherá um marinheiro de searas". 

 

Ainda só tinha uma manga enfiada e já um cheiro a after-shave ou a um perfume francamente viril me inundava, dando à experiência um toque de discreta promiscuidade pública. O Judeu insistia para que eu fechasse os botões e me olhasse ao espelho, indiferente ao meu desabafo repetido de que era óbvio que o casaco me estaria grande, sem sequer notar que a cada vez eu usava uma palavra diferente, num crescendo de sofisticação lexical -  "largo", "folgado" e "largueirão". Fechei apenas um botão, apostado em abreviar a experiência, e evitei o espelho pondo em xeque o Judeu: "Então, que tal?"

 

O conhecido do Judeu acompanhou a cena sem intervir, de braços cruzados e um discreto sorriso nos lábios, como um Pinochet belo e benigno. E o Judeu, que não é homem para esconder verdades, rematou: "Ficas a nadar aí dentro, ó marinheiro". De modo que não foi preciso pedir também os óculos escuros para poder provar pela eliminação metódica das variáveis o que já todos tínhamos dado por demonstrado e eu não tive coragem de confrontar diante de um espelho. 

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