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Ouriquense

28
Out18

Bolsanaro e os cínicos profissionais

Eremita

“Irony and cynicism were just what the U.S. hypocrisy of the fifties and sixties called for. That’s what made the early postmodernists great artists. The great thing about irony is that it splits things apart, gets up above them so we can see the flaws and hypocrisies and duplicates. (...) Sarcasm, parody, absurdism and irony are great ways to strip off stuff’s mask and show the unpleasant reality behind it. The problem is that once the rules of art are debunked, and once the unpleasant realities the irony diagnoses are revealed and diagnosed, "then" what do we do? Irony’s useful for debunking illusions, but most of the illusion-debunking in the U.S. has now been done and redone. (...) All we seem to want to do is keep ridiculing the stuff. Postmodern irony and cynicism’s become an end in itself, a measure of hip sophistication and literary savvy. Few artists dare to try to talk about ways of working toward redeeming what’s wrong, because they’ll look sentimental and naive to all the weary ironists. Irony’s gone from liberating to enslaving. There’s some great essay somewhere that has a line about irony being the song of the prisoner who’s come to love his cage.” David Foster Wallace

 

O reparo de David Foster Wallace assenta que nem uma luva aos comentadores que, incapazes de tomar uma posição clara perante o dilema Bolsonaro vs. Haddad, optam por ridicularizar quem defende o voto em Haddad. Os exemplos abundam, mas este, que é um modo de ganhar a vida, e este, que me parece ser um caso clínico, são especialmente claros. Há neles um défice de empatia e um pudor na expressão sentimentos ou daquilo que defendem que os deixa muito susceptíveis à ideia da superioridade moral da esquerda. Assim, tomam tudo por virtue signalling. A ironia e o cinismo com que descrevem como hipócritas tomadas de posição que, perante as declarações grotescas de Bolsonaro, decorrem do mais elementar bom senso, não servem o objectivo de sofisticação literária que Wallace identificou nos escritores pós-modernos, mas também os aprisionam.

 

A ironia é muito viciante para quem a sabe usar e muito cativante para o leitor, funcionando a crónica como uma dose de droga - não é por acaso que os textos de Alberto Gonçalves, escritos com inegável talento para o registo irónico, dizem sempre a mesma coisa, pois no dia em que disserem algo de surpreendente o leitor achará que a sua droga está marada. Este abuso, como o de qualquer outra droga, leva ao entorpecimento e a uma epidemia - neste caso, de cinismo. Mas o dealer da ironia está protegido, pois qualquer reparo que se lhe faça soará a impulso censório de um Jorge de Burgos (o monge bibliotecário vilão de O Nome da Rosa, de Umberto Eco, que entende o humor como algo demoníaco). A imunidade que a  ironia assegura é de tal ordem que um cobarde incapaz de assumir uma causa e de se definir pela positiva pode passar pela vida incólume, talvez até elogiado. 

 

 

 

 

 

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