Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

06
Jun17

As bebés na barragem


Eremita

É possível que a água enclausurada confine a imaginação, que só um horizonte com o mar a tocar no céu, em jeito de final aberto, nos leve a povoar o longínquo e as profundezas de monstros marinhos. Deixo a última palavra aos antropólogos estudiosos das tribos dos grandes lagos norte-americanos, que são água a perder de vista e um caso de estudo excelente para testar esta teoria, mas parece-me incontroverso que uma versão de As 20 000 Léguas Submarinas em água doce seria uma farsa. Apesar das piranhas que devoram um boi em minutos e da descarga eléctrica do poraquê, suficiente para deixar um cavalo inconsciente, apesar dos crocodilos, caimões, gaviais, aligatores e jacarés, representantes de um mundo antigo em que o planeta era povoados por criaturas assustadoras, há poucos monstros de água doce imaginários - parafraseando os Ornatos Violeta, o solitário monstro do lago Ness precisa de amigos. Talvez por isso não tivesse recusado logo a proposta da americana, mas pedindo ao surfista que nos acompanhasse. 

 

Com os anos, aprendi a confiar em Jaime, o único surfista vivo de Ourique. Quando o vi pela primeira vez, sentado na prancha a meio da barragem à espera de uma onda, senti-me logo seduzido pelo absurdo da cena. Apesar de nos conhecermos há já vários anos, por respeito e pudor nunca lhe perguntei o que o leva a fazer surf na barragem, estando as ondas atlânticas a uma hora de distância; o importante é haver um projecto de vida. Pedi-lhe que no dia seguinte entrasse com a prancha e vigiasse os gestos da americana. Eu fizera a pesquisa prévia, confirmando que a Infant Swimming Resource é mesmo uma instituição, mas causava-me ainda espécie que a americana tivesse insistido em realizar as sessões de treino na barragem, havendo em Ourique pelo menos uma piscina. E preocupava-me que, sob a camuflagem de programa de prevenção do afogamento de crianças, a americana fosse uma cristã evangélica que andasse pelo interior do país a baptizar por imersão completa as nossas crianças. Lê-se na carta que a americana insistiu que lêssemos, quando nos abordou no café:

 

"They asked, “Where’s Trevor?” and I looked beside me and said, “He was just here; he must have gone to find Brad,” but before I could finish the thought, I panicked and began to look toward the pool. I looked into the shallow end and saw nothing, and then I looked toward the deep end and could not believe my eyes. There was our sweet Birdie in the deep end next to a pair of sunglasses. He must have seen the sunglasses and reached for them—not understanding the depth of the water—no splash, no sound. How could this have happened?? He was just sitting right next to me!!!...It happens so fast. Please take pride in knowing that your child is going to benefit from over 45 years of research and knowledge that has been developed by Dr. Harvey Barnett. He has dedicated his life to creating this amazing program and saved so many children’s lives with his techniques."

 

Não percebi se era o seu relato, se a mãe do pequeno Birdie estava diante de nós, mas passei o resto do dia a sacudir imagens horrendas da cabeça com movimentos de pescoço bruscos; eram imagens estranhas, de uma estética e crueza incompatíveis, como se tiradas de um improvável filme dos irmãos Coen com argumento de David Foster Wallace e Chuck Palahniuk. Ao fim do dia já tínhamos usado o número que a americana nos deixara, confirmando o nosso interesse em formar as gémeas nas técnicas de prevenção do afogamento. De noite, falámos do espírito de missão de quem sofre uma tragédia, enquanto eu contava as notas de 20 euros para pagar à americana a primeira semana do curso. "We are getting closer to Not One More Child Drowns".

 

 

  

Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Pesquisar

Comentários recentes

  • zelisonda

    1- " Estou-me a cagar para o segredo de justiça", ...

  • Anónimo

    Estou caladinho a ver as montras da moda, o Eremit...

  • Anónimo

    O Ferro sempre foi um medíocre com boa imprensa, v...

  • Anónimo

    Atitude disparatada e despropositada de Ferro Rodr...

  • Anónimo

    Caramelo, quase gosto de ti, quando estás calado e...

Links

WEEKLY DIGESTS

BLOGS

REVISTAS LITERÁRIAS [port]

REVISTAS LITERÁRIAS [estrangeiras]

GUITARRA

CULTURA

SERVIÇOS OURIQ

SÉRIES 2019-

IMPRENSA ALENTEJANA

JUDIARIA

Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2016
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2015
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2014
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2013
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2012
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2011
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2010
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2009
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2008
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D