Aqueles que desiludem sempre
Vasco M. Barreto
Miguel Pinheiro acaba de fazer uma revelação que está a chocar o país: não podemos acreditar em Paulo Portas. Em 2018, o Observador avisa que não podemos confiar num indivíduo que na televisão afirmou convictamente não ter ambições políticas e viria depois a ser presidente de um partido, deputado e ministro; que não podemos confiar no ministro que, também na televisão, anunciou cheio de gravitas a "irrevogabilidade" da sua decisão de se demitir, para logo faltar à palavra, pressionado por dois homens que sempre desprezou, Cavaco e Passos Coelho; que, enfim, não podemos acreditar num indivíduo que é um exemplo caricatural daquilo de que se queixava o Barão de Teive (heterónimo de Pessoa), a saber: a impossibilidade de conciliar uma inteligência superior com o comportamento moral. Obviamente, a novidade não é a falta de credibiidade de Portas, mas a orfandade que Miguel Pinheiro deixa transparecer nesta extraordinária afirmação: "Paulo Portas conseguiu desiludir sempre".
Ninguém tem uma segunda oportunidade para causar uma primeira boa impressão, mas do que precisamos mesmo é de uma outra frase batida para descrever os eleitos que têm a capacidade de desiludir sempre. Desiludir sempre... Este paradoxo sucede porque há gente com um poder de tipo encantatório ou hipnotizante sobre uns pobres coitados que encontram sempre forma de restaurar a esperança, como quem é reiteradamente atraiçoado pela mesma pessoa no amor ou os Miguéis da vida subjugados por uma figura carismática, contra quem pontualmente se revoltam mas a quem sempre regressam. Miguel Pinheiro intitula a crónica "O Meu Problema com Paulo Portas". É um título de grande rigor, que caracteriza uma parte substancial da direita lusa.
