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03
Mai19

"Anti-sionismo e anti-semitismo"


Vasco M. Barreto

Cartoon Antonio.jpg

As reacções desmesuradas a um cartoon de António publicado no Expresso e na edição internacional do New York Times trouxe até nós a questão de uma crescente equiparação, em toda a Europa e nos Estados-Unidos, entre anti-sionismo (ou, ainda mais estritamente, a política e o reforço de um Estado militar e colonial pelo actual governo de Israel) e anti-semitismo. Ainda recentemente, ao visitar um cemitério judeu, o Presidente francês Emmanuel Macron, prometendo adoptar medidas legais para combater o anti-semitismo, definiu o anti-sionismo como uma das formas modernas de anti-semitismo. É verdade que neste domínio é difícil traçar fronteiras rigorosas, evocando contingências históricas e pragmatismos políticos, porque há um “eterno anti-semitismo” responsável por uma mística tão forte como aquela que envolve a figura simétrica, a do “judeu eterno”. Por isso, aliás, é que se pratica hoje uma nefasta indistinção entre o anti-semitismo europeu moderno e o anti-sionismo árabe que não se baseia em questões de hostilidade étnica e de impurezas biológicas, mas apenas em conflitos territoriais.

Basta um conhecimento superficial da história do sionismo para sabermos que o projecto sionista causou sempre muitas reticências nalguns sectores judaicos, incluindo os mais ortodoxos do ponto de vista religioso. E alguns dos mais importantes anti-sionistas e opositores da política de Israel foram e são intelectuais judeus. Pensemos em duas figuras eminentes do judaísmo, na Alemanha, os filósofos e teólogos Martin Buber (1878-1965) e Franz Rosensweig (1886-1929), que trabalharam em conjunto numa tradução da Bíblia para a língua alemã. O primeiro achava que os fins do sionismo político pervertiam o espírito do sionismo cultural. Por isso, ele e muitos membros da organização a que pertencia contestaram a legitimidade da declaração da soberania política de Israel como estado judaico, feita por Ben-Gurion em 1948. Por seu lado, Rosensweig via no sionismo uma forma laicizada do messianismo que tendia a privar o judaísmo da sua identidade religiosa e a normalizá-lo, através da reterritorialização e politização num Estado. Sobre o amor místico pelo “povo judeu” (e nem é preciso recorrer às teses altamente polémicas de um historiador judeu, Shlomo Sand, para o qual esse entidade chamada “povo judeu”, à qual se quer atribuir uma unidade eterna, é um mito), devemos recordar o que escreveu Hannah Arendt, numa dura troca epistolar com Gershom Scholem, em 1963, já depois da publicação de Eichmann em Jersusalém. Scholem escreveu-lhe a contestar a sua visão da “banalidade do mal” e a tentar refutar as acusações que a filósofa judia tinha feito aos dirigentes judeus, imputando-lhes responsabilidades no Holocausto, e a certa altura diz-lhe o seguinte: “Na tradição judaica existe um conceito, difícil de definir e, no entanto, bastante concreto, que se chama Ahabath Israel: ‘o amor pelo povo hebraico...’ Em ti, cara Hannah, não encontro vestígios dele”. Ao que Hannah Arendt lhe respondeu: “Tens toda a razão, não me sinto animada por nenhum ‘amor’ desse género: na minha vida, nunca ‘amei’ nenhum povo ou colectividade. Amo ‘apenas’ os meus amigos e a única espécie de amor que conheço e em que acredito é o amor pelas pessoas”. Hannah Arendt foi talvez a mais importante crítica do sionismo político, no século XX. E um dos seus argumentos era o de que o objectivo de fundar um Estado judaico “como a França é francesa e a Inglaterra é inglesa” teria como resultado “uma Esparta moderna, uma nação de dois milhões e meio de ‘iguais’ que reina sobre dois milhões de hilotas”. Lidos hoje, os argumentos de Hannah Arendt (que não podem ser desligados da crítica radical que fez do Estado-nação) já não têm o mesmo alcance que tiveram no tempo em que foram formulados, na medida em que parecem fornecer matéria para pôr em causa a legitimidade do Estado de Israel. Mas não é isso que devemos deduzir do discurso de Arendt. O que ela queria afirmar era que a guerra entre Israel e o povo palestiniano é uma guerra entre dois povos que se combatem pela mesma terra e que, por isso, só pode encontrar solução no recíproco reconhecimento das duas partes. António Guerreiro, Público

 

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