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Um diário trasladado

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23
Abr17

Andrade (2)


Eremita

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Todos previam para o aluno Andrade uma ascensão fulgurante, capaz de o fazer catedrático antes dos 35 anos, mas uma melancolia crescente foi-se instalando nele ao longo do curso, culminando num desinteresse pela carreira. Esta é a explicação oficial, boa para as instituições (a academia e a família). Eis a verdade: Andrade foi um caso exemplar daqueles que são vítimas de uma pulsão e um princípio irreconciliáveis. Casado desde os 18 anos com a namoradinha da adolescência, precocidade emancipadora que na altura os pais toleraram como sinal do seu génio, ao entrar na universidade Andrade soube que chegara ao seu destino; jamais iria querer dali sair e em poucos anos confirmou-se o que ele pressentiu no primeiro dia de aulas: viciou-se em sexo no local de trabalho. Mas desde o primeiro acto sexual transgressor (num anfiteatro, fora de horas) teve a certeza de que nunca recorreria ao ascendente hierárquico para seduzir, prática com grandes tradições na academia, por ele considerada abjecta. A consequência era óbvia: quanto mais alto Andrade subisse na carreira, menores seriam as suas opções de parceiras sexuais e ainda mais dramática a diminuição de oportunidades com parceiras apetecíveis. Só lhe restava recusar a glória académica e consolidar uma posição de assistente para a vida. Para tal, foi adiando a defesa da tese sem nunca a abandonar. O seu trabalho todos os anos crescia umas boas 300 páginas e essa demonstração de labor junto dos superiores chegou para que lhe tolerassem o capricho, pois durante décadas manteve o estatuto de génio excêntrico. Doce solução. Com a tese nas 1200 páginas, entre as recém-contratadas professoras auxiliares apenas uma ou duas lhe eram apetecíveis; com a tese nas 6600 páginas, todas as recém-contratadas professoras auxiliares lhe pareciam sublimes. Andrade foi um caso único de realização pessoal pela estagnação académica. Às 12000 páginas, um incêndio na universidade consumiu a tese. Consta que ninguém chegou alguma vez a saber o que ele escreveu a vida toda. Envelhecido e sem obra, a sua posição acabaria por se tornar indefensável e foi forçado a reformar-se, o que ele aceitou sem reclamar; aos 63 anos já era difícil seduzir na universidade. No seu último dia, enquanto descia a escadaria avaliando se a sua condição de reformado não seria razão para abdicar da sua regra,  Andrade viu uma contínua de grande beleza, perdendo o controlo pela primeira vez na vida. Muito tempo depois de o traumatismo provocado pelo cabo da esfregona ter sarado, ainda se debatia com a questão de ter ou não violado o seu princípio e discutia incessantemente o caso com a mulher a partir de cenários hipotéticos, pois não deixara de ser um intelecto superior.

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