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08
Jun19

Agustina, a circunstância e a recusa da confissão


Eremita

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Morreu Agustina e teve justamente uma aclamação nacional. Peço desculpa de me excluir da imensa multidão dos seus devotos. Enquanto ela era celebrada na Sé Catedral do Porto, os literati comentavam o facto lamentável de ela não ser também um grande autor internacional. Porque será?

Porque Agustina é uma filha de Entre-Douro-e-Minho, que nunca percebeu o que ficava para lá das fronteiras em que sempre se fechou. Nós podemos, como portugueses, ter uma certa inclinação por ela. Partilho o gosto pela retórica. Mas nunca consegui desculpar a ausência de arquitectura dos romances, nem a prosa imperdoavelmente irresponsável, como diria Borges. Assim vai o mundo. Vasco Pulido Valente, Público

Tenho as maiores dúvidas de que a irrelevância de Agustina lá fora se deva ao seu alegado fechamento ou, pegando num comentário de um leitor (o Gonçalo), indiferença às "transformações do romance no século XX". Elena Ferrante, provavelmente o mais recente caso de sucesso internacional (leia-se: a combinação de triunfo nos mercados anglófonos e reconhecimento da crítica), e curiosamente uma autora que partilha com Agustina o desassombro com que escreve sobre a maternidade, não será uma "filha" de Nápoles? E o que foi ela beber ao modernismo,  à geração beat, ao pós- modernismo, pós-colonialismo, hiper-realismo, à ficção científica? Mais depressa me convenço de que Agustina nunca será uma autora popular cá dentro e, sobretudo, lá fora por dois outros motivos. Um é a sorte ou, para ser mais rigoroso, o papel das circunstância. Nunca nos lembramos das circunstâncias (externas) quando se discute a carreira internacional de um escritor porque soa a explicação preguiçosa e maliciosa, mas quando alguns nos contam a história do seu sucesso, como por exemplo faz (pub) Michael Lewis nesta entrevista, as circunstâncias ganham uma importância que não pode ser apenas explicada como recurso de story telling ou estratégia para ganhar simpatia. Não há nada de novo aqui, basta aceitar a tese de Tolstói sobre a influência no curso da História de infinitas acções infinitesimamente pequenas. Mas, sem recorrer às circunstâncias ou explicações assentes na pequenez da pátria, haverá uma outra mais satisfatória para aqueles que entendem que o mundo se rege por regras. Por maior que seja o deleite que possamos ter com a sua inteligência e aquela intuição de um virtuosismo sem paralelo, Agustina causa desconforto. Não é só a impressão de que aquelas personagens são conduzidas como marionetas, é também o desconforto do confronto com aqueles que nos são inegavelmente superiores e não têm qualquer pudor em escondê-lo, antes pelo contrário. Não há em Agustina qualquer tentativa de aproximação pela subserviência ou demonstração de vulnerabilidade, que, quando aparece, é sempre na forma universalizada. Ela não seduz pelo sentimentalismo, como o internacionalmente bem-sucedido Lobo Antunes, ou recorrendo à confissão, como a mega-estrela Karl Ove Knausgård. Nesse sentido, há algum paralelismo com Nabokov, outro dos grandes arrogantes que nunca baixam a guarda, e até com o próprio Vasco Pulido Valente. Mas não há lugar para muita desta gente no espaço público, entre outras razões porque a arrogância não é garantia de coisa nenhuma. De resto,  "ausência de arquitectura dos romances" e a "prosa imperdoavelmente irresponsável" são reparos patetas que não explicam nada. Talvez VPV se tivesse saído melhor a explicar a irrelevância internacional do seu querido e de todos Eça de Queirós e o sucesso de Saramago, que ele detesta. 

 

Adenda: os textos mais ricos sobre Agustina que se publicaram nos últimos dias foram os de Mário Santos (Público) e Diogo Vaz Pinto ("i"). O primeiro, cristalino e maduro, e o segundo, rebuscado e caracteristicamente combativo, foram um complemento fundamental à torrente de depoimentos, esse jornalismo fast food em que do jornal alguém, pelo telefone ou enviando uma mensagem, encomenda a um famoso iluminado o outsourcing da reflexão da praxe.  Só me pergunto se algo não estará a falhar no ensino, pois podendo qualquer dos textos ter sido um excelente princípio de discussão, as caixas de comentários estão vazias há vários dias. Não haverá agustinianos além dos que entraram falaram aos jornais? É sabido que a competência inibe, mas sonho com o dia em que verei uma caixa de comentários de algum órgão de imprensa com a qualidade de algumas discussões que vou lendo nos comentários a artigos de alguma imprensa estrangeira.

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