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Um diário trasladado

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01
Jul18

Agustina até Agosto


Eremita

agustina-11-638.jpg

Manuscrito da primeira página de A Sibila (livro sublime). Fonte

 

A inevitabilidade da conclusão de uma leitura surge com a mesma clareza da inevitabilidade orgástica. Quando cheguei à página 90, senti que concluirei a leitura de Jóia de Família e dos restantes dois livros da trilogia O Princípio da Incerteza. A prosa de Agustina fascina-me e irrita-me, geralmente alternadamente, mas por vezes em simultâneo. Fascina-me a inteligência, sobretudo o virtuosismo das frases, e também a facilidade, o sentido de observação, o feminismo conservador, telúrico, místico e imemorial, o talento para as conciliações inesperadas de defeitos e virtudes, ainda que Agustina abuse desta fórmula ao ponto de parecer que até faz bluff, isto é, que não avalia em profundidade o acerto da boutade, transferindo essa obrigação para o leitor, como o matemático celebérrimo que, por capricho, abusando da sua reputação, dá por evidente um teorema que não tentou sequer demonstrar, condenando gerações futuras de colegas à busca de uma demonstração impossível. Irrita-me o sentido de humor falhado (bem mais grave que a falta de sentido de humor), a rigidez da estratificação social e o fatalismo, a obsessão com a beleza física, os enredos entre o romance à século dezanove e a última telenovela da TVI; não exagero, pois este livro - I kid you not -  abre com uma troca de bebés no berço. Irrita-me também, mas não é culpa da autora, a mitologia em torno de Agustina. Vasco Graça Moura, pleno de admiração, lembrava em entrevistas as páginas manuscritas da escritora, imaculadas, sem emendas nem acrescentos. Pedro Mexia, certamente seduzido pelo pessimismo antropológico de Agustina, coloca-a imediatamente abaixo da Divina Trindade e ao lado de Heberto Helder. As suas inconsistências e erros são interpretados como marca de génio, de um talento tão torrencial que não há força capaz de nadar contra essa corrente e introduzir o acerto devido. Na página 91, diz-nos Agustina que uma família se arruinou "com montanhas de panados e de bolinhos de bacalhau". E para que não haja dúvidas, a escritora acrescenta uma lista de iguarias digna de um híbrido da Laura Esquível com Enid Blyton. Mas que família se arruina com "opíparos assados", "pão-de-ló" e "aletria"? Não conheço nenhuma e talvez nem sequer esta família inventada por Agustina, pois na página seguinte aprendemos que o patriarca se arruinou no jogo. Como é, afinal? Foram as cartas ou o presunto de Chaves? Não sabemos. Não interessa. O raccord é uma obrigação dos medíocres. 

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  • Anónimo

    https://www.scribd.com/document/27843291/A-Invasao...

  • Eremita

    Saí do Twitter, entre outras razões, por me parece...

  • Anónimo

    Eremita: o tipo fez-te uma simples pergunta, pouco...

  • P. P.

    Infelizmente, TRUE.

  • Eremita

    O Ouriq não precisa de trolls.

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