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OURIQ

Um diário trasladado

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16
Mai19

Afonso Melo (15)


Eremita

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Há duas décadas, os oito ou nove anos que A. leva de avanço valiam muito mais do que agora. Era um tempo marcado pelas canções de Paul Simon, Camarate e uma febre incipiente de escrita, que deixou muitos de nós em delírio. A febre deu em fartura, a julgar pelo número de jornalistas que saíram daquele prédio. Conto pelo menos cinco, que hoje são nomes conhecidos da imprensa e da rádio. Ao fundar a Cocas, uma revista de humor, crónicas e cartoons, feita de páginas A4 dobradas e agrafadas na lombada, A., que escrevia com graça e desenhava bem, não podia desconfiar ter iniciado um movimento sem paralelo nos restantes prédios dos Olivais. À Cocas seguiu-se a Lince, que contava com o talento de um futuro pintor. Veio depois a Urso. Ambas as publicações eram honestas mas nunca chegariam ao brilhantismo e impacto da Cocas. Guardo duas frustrações vagamente traumáticas desse período. A primeira: como escrevi a página de curiosidades de um dos números da Lince, marcou-me saber que Bjorn Borg ganhar oito escudos por segundo no princípio dos anos oitenta. A segunda: nunca ter contribuído para as edições a preto e branco da Cocas. Não sei onde A. e os seus colegas preparavam a revista. A Lince era feita numa das caves do prédio, em clima de rivalidade, o que chegou a resultar em alguns golpes palacianos e no roubo de uma edição completa da Cocas, pronta a ser posta em circulação.

 

Quando não estávamos a escrever, jogávamos à bola. A devoção ao futebol inglês era a segunda idiossincrasia do 484 da Avenida cidade de Luanda. A tragédia do Heisel Park ainda estava para chegar e o campeonato inglês era um bom campeonato, mas ainda hoje ninguém consegue explicar a recusa do Calcio, quando já naquela altura todas as estrelas jogavam no campeonato italiano. Mais: em 78 a Argentina havia ganho o Mundial; em 82 fora a vez da Itália, mas o Brasil brilhara. A verdade é que um núcleo duro de 4 aficionados insistia nas virtudes do futebol à inglesa: passes em profundidade, cruzamentos e golpes de cabeça. O modelo a seguir era o kick and rush. No campo, ensaiávamos cantos e um cabeceamento à Ian Rush por cima da trave valia por três golos à Gomes. Chuva miudinha e céu cinzento era o tempo desejado, por ser mais à ingalesa. O relvado ficava escorregadio e como o campo era bastante inclinado os cortes de carrinho eram irresistíveis. A lama das clareiras sujava depois os equipamentos e no fim era um gozo regressar a casa deixando rasto nos patamares. Enfim, a Dona Patrocínia, a porteira, talvez não fosse da mesma opinião, mas parecia que aqueles nacos de lama recortada pelos pitões das chuteiras tinham histórias para contar. É que a lama, que às vezes nos chegava até à boca num respingo e nos cobria a cara, tinha um cheiro que apelava a uma discreta geofagia quando o sector defensivo podia relaxar um pouco. e também uma textura medicinal, que ajudava a acalmar a pele sempre que o couro da bola nos feria a cara, quando falhávamos um cabeceamento ou simplesmente levávamos com um petardo nas trombas. Estes aficionados do futebol britânico estavam bem documentados.Talvez tudo tivesse começado com o rapaz que fazia tabelas à régua para preencher com todas as estatísticas do Liverpool. O Tejo entrava-lhe pela janela mas de todas as paredes do quarto dele vinha o sorriso de Kenny Dalglish. Comparado com aqueles rapazes, o Rui Tovar era um amador. Para efeitos de palmarés, a entrega ao estilo inglês de pouco serviu. O quarteto britânico era extremamente perdulário e acabava por ser derrotado em quase todos os jogos. Porém, após nove jogadas falhadas surgia sempre uma que nos reconciliava com o futebol: D. no miolo do terreno desembaraça-se de dois adversários, lança V. pelo corredor direito… que vai quase até à calçada… cruza em arco para a cabeça de A. II… que remata ao tronco da faia (poste esquerdo); A. recupera, torna a distribuir para o corredor direito, V. centra de imediato, A. enquandra-se com o esférico, aplica um volley à Kenny Dalglish e -por uma vez - a bola não parte os vidros da vizinha do quinto andar mas entra em arco pelo canto superior direito da baliza da ciganada.

 

Do grupo, o meu preferido era A. Comecei a gostar dele dentro das quatro linhas. Temperamental, com olhos claros e melenas à revolucionário, parecia mais um jogador italiano e envergava até uma camisola da Juventus, o que era uma afronta ao estilo de futebol que o grupo idolatrava. Detalhes. A. era, sobretudo, justo e correcto. Em jogos que juntavam miúdos de 10 anos e adolescentes de 17 e 18, o abuso da força era uma constante, da carga de ombro ao pontapé vingativo, passando pela simples ameaça. A., que era dos mais fortes entre os mais velhos, nunca tratou mal a canalha e estas coisas ficam gravadas, agigantando-se com o passar do tempo. Como se não bastasse, de noite, quando ainda só ficávamos pelas imediações do prédio, ele, regressando da cidade, trajando a preto e branco, já com toda a competência do boémio e com aquele andar naturalmente cambaleante ainda mais marcado, juntava-se a nós e demorava-se em relatos. Os bares ainda nos eram desconhecidos e ele tomava ares de mensageiro de outros mundos. Quando deixámos de ser vizinhos, os oito ou nove anos continuavam a fazer diferença. Muitos anos depois, é reconfortante saber que ele ainda anda por aí a respirar futebol, quando já ninguém joga à ingalesa, a começar pelos próprios ingleses.

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