A solidão como disciplina
Eremita
Após anos de presença intermitente nas chamadas redes sociais, creio que as deixei de vez ou pelo menos durante um longo período a elas não regressarei. Poderia dar uma explicação nobre, como a necessidade de ganhar tempo para ler e escrever, agora que os afazeres domésticos com as bebés não dão tréguas, o número de livros por ler atingiu máximos históricos e a noção da finitude da existência se vem avivando. Mas tal explicação, não sendo errada, ficaria incompleta. Em rigor, uma das motivações para estar nas redes sociais era o conforto da sedução de sofá, isto é, a possibilidade de a qualquer instante poder interagir com uma mulher que me atraísse, como prelúdio para eventuais encontros carnais. Sendo esse modo de vida incompatível com o meu entendimento da conjugalidade, as redes sociais perderam muito do seu encanto. Acrescento ter concluído que não era popular, pois tinha um número modesto de amigos, likes, retweets, comentários e nunca assinei um post viral, o que gerou alguma frustração, e que foram raríssimos os momentos gratificantes em que descobri algo imperdível ou tive uma troca de palavras memorável. Nunca voltei a sentir nas redes sociais, fosse no caldeirão de emoções do Facebook ou na torrente de ironia esforçada do Twitter, o mesmo entusiasmo que os blogs me deram entre 2003 e 2007. Nesse tempo, sobretudo logo nos primórdios (2003-2004), só por lá andava quem gostava de escrever e recordo hoje textos, polémicas e outras interacções com um sorriso discreto; nas redes sociais, anda quem gosta de aparecer e a massificação banalizou o meio. Oscilando entre as explosões de indignação que caracterizam as caixas de comentários dos jornais online e tendo trocado o elitismo pelos prazeres fáceis, o ambiente das redes sociais é como um táxi em que o taxista barafusta com o mundo mas ouve sempre a alienante Rádio Comercial.
