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11
Nov18

O salazarismo e a "reductio ad Hitlerum" invertida


Eremita

Tenho uma estima especial por Luís Campos e Cunha, de certa forma proporcional à desconsideração por Sócrates, mas esta enésima redacção sobre o erro de se caracterizar o salazarismo como um regime fascista é algo anacrónica e muito inábil. O tema já foi debatido à exaustão a propósito de um capítulo sobre o salazarismo que Rui Ramos escreveu na História de Portugal por ele coordenada. Ninguém nega que Salazar foi mais brando do que Franco, Mussolini e Hitler, que era mais conservador e reaccionário do que revolucionário, que não tinha grande apoio popular, e que faltavam a Salazar características típicas num ditador facista, da farda militar ao fascínio pela tecnologia e ao gosto pelos banhos de multidão. Campos e Cunha chega a forçar os contrastes quando se refere ao catolicismo de Salazar, esquecendo-se de que Franco também era católico. E até inventa factos, como a extraordinária afirmação - para realçar a abertura de um sistema que permitiu que Agostinho Neto e Amílcar Cabral tivessem estudado em Lisboa - de que "o primeiro americano negro a entrar na universidade de brancos nos Estados Unidos data de 1962". Onde terá Campos e Cunha desencantado tamanho disparate? O ensino superior interracial nos Estados Unidos remonta ao século XIX e até uma universidade elitista como Yale formou um norte-americano negro, Cortlandt Van Rensselaer Creed, em... 1857. Enfim, o problema ultrapassa o detalhe e até os erros factuais.

 

A reductio ad Hitlerum é uma expressão inventada por Leo Strauss como um caso particular da reductio ad absurdum. Acontece sempre que alguém estabelece uma associação entre o seu oponente e Hitler e, independentemente da veracidade, é um argumento falacioso porque uma ideia ou acção não é forçosamente criticável apenas por ter sido partilhada por Hitller. Campos e Cunha pratica o exercíco oposto, isto é, estabelece uma distância entre Salazar e Hitler, mas não se livra da falácia, pois uma ideia ou acção não é forçosamente virtuosa apenas por se distinguir em qualidade ou grau, forma ou conteúdo, das ideias e acções dos nazis. Haverá, por isso, formas mais subtis e úteis de contextualizar a ditadura de Salazar.

 

Diz-se que os historiadores portugueses de esquerda se apropriaram do estudo do Estado Novo após o 25 de Abril e só nas últimas duas décadas o contributo de historiadores de direita e o maior distanciamento histórico nos terão posto no caminho da "verdade histórica". Depois de ler o capítulo de Rui Ramos na sua História de Portugal, fiquei com as maiores dúvidas quanto ao valor desta narrativa. A dialéctica pode contribuir, a prazo, para uma visão mais objectiva e sensata, mas a dialéctica à bruta dos grandes e recorrentes contrastes, de que o texto de Luís Campos e Cunha é um exemplo surpreendente, resulta num exercício retrógrado, que dá ânimo a um movimento pendular de amplitude exagerada e com efeito contrário ao pretendido por este bem-intencionado mas algo criativo e ingénuo professor catedrático.

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