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Ouriquense

23
Abr18

A primeira adversativa do resto da tua vida

Eremita

A carreira extraordinária de Cristiano Ronaldo, conjugada com a informatização dos dados e uma pressão constante para produzir "conteúdo" informativo, deu origem a uma febre de recordes sem precedentes. É raro o mês em que Ronaldo não bata um recorde e o povo vibra com os feitos do seu herói, mas sabemos que somos cúmplices de uma fraude colectiva. Aos abundantes títulos atribuídos pelas instituições reconhecidas,  que são mérito inegável de Ronaldo, juntam-se recordes anunciados no Twitter que são sobretudo mérito de quem deles se lembrou. A doutrina divide-se entre os que dizem que estes recordes são descobertas, estando já nas tabelas estatísticas como um fóssil por descobrir existe debaixo da terra, e aqueles que os entendem como invenções, não no sentido pejorativo de "coisas inexistentes" mas de criações que nascem no momento em que são verbalizadas. Pouco importa, porque o que diverte e impressiona é mesmo o absurdo em crescendo a que vamos assistindo. Um dia alguém anunciará que Ronaldo acaba de bater o recorde de golos de cabeça marcados a guarda-redes de olhos verdes, de hat-tricks ao terceiro domingo de cada mês, do número de nacionalidades/ confissões religiosas / orientações sexuais / identidades de género reveladas a posteriori envolvidas na construção de uma jogada que o recordista rematou em golo, da mais longa série de golos alternadamente marcados com os pés esquerdo e direito... Os limites são a imaginação e o sentido do ridículo, mas quem sou eu para criticar estes génios do recorde, se há mais de dois anos não faço oura coisa senão inventar ou descobrir efemérides que vão marcando o crescimento das minhas meninas?

 

Há muitos anos, lembrei-me de uma efeméride pessoal que ainda hoje me parece aceitável: o momento em que atingimos a idade que um dos nossos pais tinha na memória mais antiga que dele guardamos. Pensado é mais simples do que lido e creio que o efeito ultrapassa o da mera coincidência de idades, pois a data pode simbolizar o momento em que se toma consciência de que o progenitor sempre foi, antes de mais, um indivíduo como nós, e que, na verdade, encandeados pela imagem avassaladora do pai ou da mãe, conhecemos mal. Mas inventar boas efemérides segundo a perspectiva do filho é trivial, porque, não havendo qualquer pressão, o ócio pode operar a sua mágica criativa. O problema só surge quando se troca de papel, pois a parentalidade cria uma pressão permanente para criarmos "conteúdos" simbólicos. Nos primeiros tempos, testemunhar qualquer coisa feita pela primeira vez por um bebé, dos momentos mais cómicos, como o primeiro manguito não intencional ou uma bufa sonora e prolongada, aos mais emocionantes, como a primeira melodia, as imitações óbvias do nosso comportamento, um gesto de ternura, a interacção com um animal ou um acto de resistência revelador de uma personalidade, é logo pretexto para uma efeméride que urge documentar e comunicar. Esta pulsão não vem sequer com o valor redentor da originalidade, que os génios dos recordes de Ronado podem reclamar, pois fazemos o que os nossos pais e avós fizeram, só que de forma mais exagerada, porque está em voga a parentalidade intensiva e a tecnologia é mais potente. Por isso, a série Tribo vale mais pelos rascunhos que não publico e acabo por apagar do que pelos textos que escapam à minha censura. Este pudor tem crescido e ainda bem, sobretudo desde que as miúdas começaram a falar, mas a pressão não deixa de aumentar e só regras claras e um compromisso público me permitirão resistir a divulgar aqui todas as conquistas de vocabulário, gramaticais e de retórica emergente com que as gémeas nos vão alegrando os dias. Estabeleça-se então um número: não mais de três referências por ano. Pois bem, gasto já uma: não tive a sorte de a ouvir, mas contou-me a L. que a M., na semana passada, disse o primeiro "mas" enquanto conjunção adversativa. Apesar de o primeiro "não" marcar o nascimento de uma personalidade, não deixa de ser coisa para gozar com sensibilidade de consumidor de blockbuster, como o comprova a cena de um dos filmes da saga Planetas dos Macacos, em que um  "Nooooo!" gritado assinala a antropomorfização completa do símio revolucionário; já a subtileza do primeiro "mas" pede uma sensibilidade de fã de "cinema de autor", e, enquanto operação cognitiva, contrapor é bem mais sofisticado do que negar.

 

Que uses a adversativa com parcimónia, propriedade e coragem, minha filha, sem que caias em prostração. Que um dia percebas como é difícil, ainda que por vezes imprescindível, encadear duas adversativas, porém sem comprometer a estética, a clareza e a ética, mas que por enquanto gozes o teu primeiro e singular "mas".

 

 

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