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OURIQ

Um diário trasladado

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21
Jun19

A poção de Panoramix (23)


Eremita

bola velha.jpg

Estamos a chegar a uma altura em que já se escreveu sobre tudo. Há duas décadas também seria essa a sensação e é assim há muitos anos, o que sugere sermos vítimas de uma ilusão. Mas parece-me deveras improvável que não exista por aí um tratado sobre a alcunha, ainda que seja apenas uma edição de autor de um professor de instrução primária de um pueblo na periferia de Cusco, Peru. Se eu escrevesse tal livro⁠ — coisa que não farei⁠ — dividiria a alcunha em quatro tipos. Há a alcunha auto-imposta, a mais ridícula de todas e que tende a ser um reflexo megalómano. Temos a alcunha inspirada nas características físicas, geralmente a mais cruel e a menos imaginativa. Existe a alcunha que traduz características psicológicas, que pode ser muito castiça ou não. E guardei para o fim a alcunha biográfica, isto é, aquela que surge na sequência de um episódio. É na infância e adolescência que a alcunha se estabelece. Deixo a cada um a tarefa de indexar as alcunhas que conhece. Aqui escreverei apenas sobre Panoramix.


Falamos de uma alcunha que dispensa chave dicotómica, pois como éramos imberbes só pode ser do tipo biográfico. O instante fundador aconteceu a meio de um dos nossos campeonatos. A nossa equipa perdia, essencialmente por falta de preparação física. Há por aí a ideia de que as crianças e os adolescentes têm uma energia inesgotável. É uma ideia errada. Tudo é relativo e os outros corriam claramente mais do que nós. Talvez fosse resultado das nossas noitadas com o ZX spectrum. O certo é que naquele Verão não estávamos com força. Foi então que N. se lembrou dos suplementos vitamínicos. A equipa começou a tomar doses moderadas de vitamina C, mas em menos de uma semana tínhamos feito a escalada para o exagero: consumíamos quantidades inconcebíveis de pastilhas efervescentes coloridas: "O meu mijo já sai cor de laranja", queixou-se um a dada altura. Mas continuávamos a perder e sem fôlego. Só N. não desarmou e insistiu em explorar outras alternativas. Dos produtos orgânicos às afinações na dieta, nada parecia resultar. O eureka de N. surgiu numa tarde de televisão, durante um intervalo para publicidade: era a Coca-cola. N. experimentara já o ligeiro frenesim que tomava conta dele depois de beber três Colas. O seu golpe de génio foi perceber que era preciso isolar do refrigerante o princípio activo que dava energia. Fosse outro o lugar e a época, talvez houvesse no prédio um engenhocas, ou um daqueles miúdos tímidos com kits de química e microscópio. Não havia ninguém. As ciências naturais não entravam num prédio de magistrados. Só que N., comnhecido por ter um raciocínio escorreito, lembrou-se de evaporar a água da Cola-cola. As primeiras experiências falharam mas ao fim de uns dias tinha o método optimizado: uma simples fervedura prolongada num caldeirão destapado. Ao fim de umas horas, 10 litros de Cola-cola estavam reduzidos a uma pasta caramelizada que cabia numa mão fechada. N. moldava depois a pasta com ajuda de uma forma, punha o produto no congelador e após algumas horas apresentava-nos uma tablete de aspecto duvidoso, que se trincava fria "para não perderem a energia vital nos dentes" e era insuportavelmente doce. Confesso que tomei aquilo. E funcionava. Consumida a meia-hora do encontro, entrávamos com fogo no rabo e com uma dose suplementar ao intervalo ninguém nos agarrava. Cada jogador ficava a 20 litros de Coca-cola por encontro, a época ia a meio e a equipa tinha 8 elementos. Basta fazer as contas para perceber que era uma brincadeira cara. Mas funcionava e ninguém tinha vontade de parar.


O volte-face veio de novo da televisão: escândalo de dopping na Volta à França. Os mais escrupulosos acusaram o toque. N. ainda argumentou: "A Coca-cola não é uma substância proibida. Não sejam parvos". Mas a verdade é que nós tínhamos uma vantagem sobre os outros. Em poucas semanas passáramos para a frente. "Querem perder o campeonato, é?" ameaçou-nos N. Ninguém queria perder. Movidos a Cola-cola limpámos os jogos que faltaram e conquistámos a nossa primeira taça. Ficámos eufóricos nessa noite. Veio depois uma leve ressaca, que foi crescendo devagar. Como se nos quiséssemos livrar de uma recordação má, nos dias seguintes a taça foi passando de mão em mão, até acabar no quarto de N. E ele, que continuava feliz e em paz, atacou a raiz do problema. Chamou-nos e disse: "Quem de entre vós não tem a colecção dos álbuns do Astérix?" Todos tinham, menos um. "Não te preocupes, empresto-te os meus. Queria que esta noite lessem o Astérix entre os Bretões. Amanhã voltamos a falar, está bem?". Assim fizemos. Ninguém percebeu a ideia de N., mas de manhã ele explicou-nos:


- Lembram-se de me terem dado dinheiro para as Colas? Bem, eu acabei por comprar uma bicicleta e nos últimos jogos aldrabei as tabletes. Aquilo era só açúcar. Açúcar castanho. Comido gelado nem se percebia a diferença.


- Tu compraste uma bicicleta com o nosso dinheiro?


- Sim, e peço-vos desculpa por isso. Mas não estão a perceber? Não leram o livro? O açúcar dos últimos jogos foi como o chá que o druida deu aos Bretões na falta de poção mágica. A malta não precisou daquilo para vencer os últimos jogos. Ganhámos com mérito. Sem dopping!

 

As sensações ambivalentes provocam alguma azia e uma geral sensação de mal estar: queríamos esmurrar N. e abraçá-lo também. A taça voltou a ser um objecto cobiçado. Ninguém chegaria a ver a bicicleta nova de N., mas ou não nos lembrámos mais disso ou não houve coragem para colocar a pergunta. Panoramix é hoje o homem mais bem-sucedido entre todos os que moravam naquele prédio e entretanto cresceram.

 

Da série A Bola no Olival, 100 textos curtos sobre a infância antes da puberdade no bairro Olivais Sul (Lisboa) no final dos anos 70, princípio dos anos 80. Os textos apareceram pela primeira vez no extinto A Memória Inventada e estou a republicá-los no Ouriq com pequenas emendas e acrescentos. 

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