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Um diário trasladado

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13
Abr19

A triste mundividência de Ratzinger


Eremita

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(pub)fonte

Ratzinger sempre gozou de um estatuto de intelectual ímpar. Qualquer laico que o critique é acusado de ignorância ou algum tipo de incapacidade cognitiva, como se a infalibilidade do pensamento do grande Ratzinger fosse efectivamente superior à infalibilidade papal, admitindo que toleramos a violação da lógica que é hierarquizar dois absolutos. A sua declaração sobre os escândalos sexuais da igreja ((pub) versão completa) será analisada por se tratar de um caso raro em que a Igreja parece falar a duas vozes, criando —  aos olhos dos descrentes — uma dinâmica de good pope e bad pope. Muitos repararão na ausência de compaixão e no fanatismo religioso, pois as vítimas destes crimes ignóbeis são mencionadas apenas uma vez e a grande tragédia, segundo Ratzinger, é o trauma lhes ter impossibilitado a fé. Outros criticarão Ratzinger por ele fazer a apologia do martírio, mas não dar mostras de nenhum arrependimento, denunciando até alguma auto-hagiografia, sendo certo que os escândalos mais graves surgiram durante o seu pontificado e incerto se ele terá feito tudo o que estaria ao seu alcance para proteger as vítimas e prevenir novos casos (leia-se este balanço crítico publicado na (pub) New Yorker). As associações LGBT+ protestarão pela associação vagamente implícita da homossexualidade à pedofilia. Outros ainda dirão que eleger a libertação sexual dos anos 60 como explicação desta tragédia é um absurdo desmentido pela realidade, pois não só os escândalos precedem os anos 60, como, apesar de uns (pub) delírios pontuais de esquerdistas sobre sexo entre (e até com) crianças, a penalização social da pedofilia só viria a agravar-se dos anos 70 em diante.  

 

 

 

O que eu retive da leitura da carta, além da crítica do excesso de garantismo no direito canónico, foi a visão cristalizada que Ratzinger parece ter sobre o mundo.  

How many winds of doctrine have we known in recent decades, how many ideological currents, how many ways of thinking. The small boat of the thought of many Christians has often been tossed about by these waves - flung from one extreme to another: from Marxism to liberalism, even to libertinism; from collectivism to radical individualism; from atheism to a vague religious mysticism; from agnosticism to syncretism and so forth. Every day new sects spring up, and what St Paul says about human deception and the trickery that strives to entice people into error (cf. Eph 4: 14) comes true.

Today, having a clear faith based on the Creed of the Church is often labeled as fundamentalism. Whereas relativism, that is, letting oneself be "tossed here and there, carried about by every wind of doctrine", seems the only attitude that can cope with modern times. We are building a dictatorship of relativism that does not recognize anything as definitive and whose ultimate goal consists solely of one's own ego and desires."Pro Eligendo Romano Pontifice", Cardeal Ratinger, 2005

Nem o mais feroz adversário do marxismo cultural seria capaz de ver o relativismo como a raiz de todos os males, incluindo os crimes sexuais do clero. Estes são muito mais simples de explicar como manifestações de uma velha ortodoxia contra natura (o celibato, o pecado original e o culto da culpa associada ao sexo), cuja história é (pub) fascinante. Nada nos permite concluir que o reforço da ortodoxia tão desejado por Ratzinger e outros saudosos do catolicismo fosse acabar com os crimes sexuais do clero, antes pelo contrário.

 

 

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