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OURIQ

Um diário trasladado

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19
Mai17

A minoria silenciosa


Eremita

É chato ser canhoto porque o mundo está feito contra nós. Não é só a tesoura que não dá jeito: também não corta e, se nos esforçarmos para conseguir cortar, magoa a mão e corta tudo torto, sem que possamos ver o que estamos a fazer.

Para um destro ter uma ideia do que é ser canhoto seria preciso que, durante uma semana, se amanhasse com uma faca de pão para canhotos, um abre-latas para canhotos, um apara-lápis para canhotos, um saca-rolhas para canhotos, um descascador de batatas para canhotos, uma régua para canhotos, uma caneta de tinta permanente para canhotos e um bloco para canhotos. Qual é o destro que já passou por isso?

Acrescente-se, já agora, a gracinha de nem sequer saber porque é que estas utilidades são todas tão inúteis e o sacrifício, por uma questão de sobrevivência, do direito de estar sempre a queixar-se. Para não falar na despesa de substituir as coisas (como o abre-latas) que fatalmente destruirá.

Toda a orientação dos livros, deste jornal, deste website, é anticanhota. Não há neutro: é esse o problema. Se fossem para canhotos, sofreria a grande maioria dos leitores, que são destros. A companhia anythinglefthanded.co.uk fez um valioso vídeo em que mostra as dificuldades concretas dos canhotos, começando pelas crianças.

Não basta simpatizar com elas: é preciso compreender as causas físicas das frustrações delas com as coisas concebidas para os destros. É simples e insolúvel: para os canhotos as coisas (e as pessoas) direitas é que estão ao contrário.  Miguel Esteves Cardoso

 

Não conheço pessoa mais canhota do que eu. Só escrevo com a mão esquerda, só dedilho a guitarra com a mão esquerda, só remato menos mal com o pé esquerdo, só pisco com convicção o olho esquerdo, só confio nas papilas gustativas do lado esquerdo. Sinto o meu corpo como uma quimera em que, dos pés à cabeça, só a metade esquerda me é familiar. É a metade mais treinada e gasta, tão mais vigilante que só não trato a direita abaixo de parasita por respeito aos manetas e pernetas. Conseguiram ensinar-me a usar a faca e o garfo como os destros, mas em tudo o resto sou um canhoto selvagem; e nas noites de lua-cheia, buscando o reencontro com a minha natureza, ao jantar troco a faca e o garfo de mãos*. Porém, a prosa de Miguel Esteves Cardoso pode encantar os jovens, mas não comove este canhoto veterano. 

 

Há por aí uns livrinhos que fazem o elogio ou a apologia do canhoto, invariavelmente escritos por canhotos, cheios de trivialidades como listas de canhotos famosos. E há, de vez em quando, um artigo de opinião à MEC sobre a discriminação a que os canhotos são sujeitos, que começaria na própria falta de percepção dos destros de que nós somos uma minoria desprezada. Por comparação a casos trágicos de injustiça social, esta vitimização, a propósito de uma característica física minoritária que em nada de essencial complica a vida, é tão caprichosa que felizmente ninguém a leva a sério.

 

A única forma que encontrei de lidar com o canhotismo foi a série homónima, que pretende ser uma paródia política. Nela se conta o percurso de Julião, um revolucionário canhoto. Ainda jovem, Julião apercebe-se de que consegue reunir à sua volta um grupo de canhotos. Ambicioso e ciente de que não haverá mais de 10% de canhotos votantes, Julião destila a essência do seu apelo e resolve seduzir todas as minorias, seguindo a intuição de que há uma sensação de abandono entre a vasta maioria que não pertence a alguma das minorias tradicionalmente discriminadas que começaram a adquirir direitos. É com esta coligação de minorias, uma materialização populista da juvenil necessidade de pertença, que Julião conquistará o poder. Pareceu-me um bom enredo para discutir política e oxalá o consiga terminar. Caso contrário, da próxima vez que um canhoto se lembrar do exemplo do raio da tesoura, pressinto que não responderei pelos meus actos e isso preocupa-me.  

 

* Este detalhe é mentira.

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