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Ouriquense

14
Set18

A Medicina e o meu pai

Eremita

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Esta tabela é tirada de uma notícia do Público que anuncia, com algum alarme, a saída dos cursos de medicina do top 5 dos cursos universitários com médias de entrada mais altas. O alarme é excessivo. A nota do último aluno a entrar é um critério enganador, porque entre dois cursos igualmente pretendidos pelos melhores alunos o que tiver menos vagas aparecerá à frente na lista. Mas nem vale a pena lembrar estes detalhes técnicos. O curso de Medicina continuará a ser o que mais prestígio social dá, mesmo não sendo aquele que o mercado mais valoriza. E pouco adianta lembrar que os grandes magnatas estão mais associados à ciência, à tecnologia, às finanças e aos negócios do que à Medicina, porque sempre assim foi. O prestígio da medicina não assenta sequer na garantia do acesso à classe média, nem na miragem de uma vida de classe média alta, pois radica no protagonismo que o médico assume nos momentos mais complicados que vamos tendo na vida - diante de nós, ele aparece-nos de bata, asseado e com um discurso sensato, mas o que ouvimos é o eco das cantorias de um feiticeiro com pinturas tribais que terá tratado com magia os nossos antepassados remotos.

 

O meu avô paterno já não está entre nós há muitos anos, mas suspeito que esta notícia não teria abalado a sua convicção de que o único curso que vale a pena tirar é Medicina (com a possível excepção do Direito). Também o meu pai não ficará muito convencido com este domínio das engenharias e da computação. Ambos me tentaram convencer a ir para Medicina, com os argumentos do costume, e ambos contrariei com argumentos que talvez não voltasse a usar. Foi a primeira vez na vida que tive realmente de fazer valer a minha voz, com a possível excepção de um "momento Spartacus" anterior - que hoje suspeito ser uma memória plantada. Creio que não cheguei a utilizar o argumento decisivo, não sei se por na altura não o ter presente ou por vergonha. A verdade é que a minha personalidade nunca lidaria bem com o "erro médico" e escolher Medicina teria sido um grande risco. 

 

Já não me surpreende a insistência do meu pai. Ele e os seus dois irmãos escaparam à monocultura da banana e a uma existência remediada num lugarejo da ilha da Madeira graças aos estudos. "Subiram" efectivamente na vida, como quase não vi acontecer aos meus amigos, talvez por muitos dos meus amigos terem já partido de um patamar mais alto, mas também porque os filhos do meu avô paterno são particulamente inteligentes, trabalhadores e ambiciosos. Ainda hoje, duas décadas passadas, me pergunto se ter ido para Biologia foi a melhor decisão, podendo na altura ter ido para onde quisesse. Recomeçando, voltaria a não escolher Medicina, não só por um imperativo de prudência, mas por ter entretanto percebido que os cientistas são, em regra, mais interessantes do que os médicos (que não fazem investigação); talvez tivesse ido para Bioquímica, Matemática ou Física. Mas a escolha do curso é irrelevante; a longo prazo, o mais provável seria ter vindo parar a Ourique, qualquer que tivesse sido o meu percurso académico e profissional.

 

O que realmente conta, o que ganhei daqueles meses de pressão constante do meu pai para ir para Medicina ou Engenharia foi uma lição de parentalidade, que sempe valorizei mas ainda mais depois de também eu ter sido pai. O meu pai nunca exerceu a sua autoridade além do que seria tolerável. As discussões eram constantes, na minha presença e na minha aparente ausência (atrás da porta da sala, eu ouvia as conversas que o meu pai tinha com os seus amigos sobre este assunto), mas pararam abruptamente no momento em que entrei na universidade. Se fosse só isto não seria especialmente louvável. O que mais estimo foi ele não ter guardado nenhum rancor por eu não ter seguido os seus conselhos. Nos anos seguintes, foram muitas as minhas "crises existenciais" relacionadas com os estudos e o trabalho, mas pude contar com o apoio dele sempre, de uma forma absolutamente incondicional, sem jamais me cobrar a irreverência dos meus 17-18 anos. Tenha eu a mesma decência quando chegar a minha hora.  

 

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