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Um diário trasladado

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06
Fev17

A influência da ansiedade


Eremita

Tenho um carinho de tipo corporativo por académicos em que é grande o desajuste entre a tese e o exemplo apresentado para a sustentar. Se há toda uma literatura que pode ser explicada pela ansiedade da influência, isto é, a ideia (cristalizada por Harold Bloom) de que cada escritor sente o peso dos escritores que o precederam, existe também uma literatura que se explica pela influência da ansiedade. Que esta brincadeira com as palavras não nos distraia: percebe-se que o autor está mais refém da sua ansiedade de partilhar ideias que o habitam (influência da ansiedade) do que da reputação de autores passados (ansiedade da influência) quando recorre à actualidade para as catapultar o mais longe possível, falhando de modo absurdo, como quem arma a catapulta com um fardo de algodão.

 

silence-movie5-1024x576.jpg

O caso mais recente, que roça o paroxismo, é o de uma crítica de José Miguel Pinto dos Santos a Silêncio, o último filme de Martin Scorcese, no cada vez mais incontornável Observador. Para não complicar a discussão, aceitemos que vivemos num tempo novo, marcado pela "pós-verdade", ainda que a propaganda e a mitificação actuais não sejam novidade (pensemos no amor cego dos intelectuais do Ocidente pela União Soviética). Ora, a "pós-verdade" é a catapulta de Pinto dos Santos. O que há de extraordinário no artigo é o autor interpretar o acto de ficcionar parte de um episódio histórico como um sinal de que a "grande falha civilizacional hoje é epistemológica". Qual foi o crime de Scorcese e de (creio) Shūsaku Endō, que escreveu o romance em que se baseia o filme? Escreve Pinto dos Santos:

"... é lamentável que (...) [se tente] sub-repticiamente passar por realidade o que não passa de ficção usando uma técnica ardilosa: juntando a um [sic] personagem histórico de carne e osso duas figuras fantasiosas de padres que nunca existiram. O autor poderia ter escrito a mesma estória sem lá ter posto o personagem histórico Cristóvão Ferreira e a novela seria só novela; também poderia ter feito um relato fatual, com o [sic] personagem histórico Cristóvão Ferreira acompanhado de outros personagens históricos, como Chiara ou Cassola, e teria então escrito História. Mas escolheu misturar tudo."

Parece, então, que misturar factos e ficção é um pecado e um pecado do nosso tempo, o que nos levaria a concluir que o relato de Fernão Mendes Pinto, só para não sairmos do Japão, onde decorre a acção de Silêncio, é absolutamente fiel aos factos ou então pura ficção. Enfim, a opinião de Pinto dos Santos só pode mesmo ser explicada pelo fenómeno da influência da ansiedade. Enquanto a ansiedade da influência é um fenómeno global, a influência da ansiedade caracteriza sobretudo culturas periféricas pouco habituadas aos holofotes. Tendo antes escrito um artigo de História algo obscuro sobre os Jesuítas no Japão do século XVII, que aproveitou - e bem - para divulgar no seu texto no Observador, seria injusto e primário ver na ansiedade de Pinto dos Santos um desejo de protagonismo. O que a sua ansiedade denuncia é um desejo de recuperar aquilo que ele julgava pertencer-lhe por mais ninguém o reclamar, como se o usucapião também se aplicasse às ideias. Desta vez foi Pinto dos Santos, mas qualquer académico honesto vos diria que calha a todos. 

 

 

 

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