A inércia da tradição
Eremita
Oito anos depois de defender a audição de livros, continuo na defensiva. O meu método evoluiu. Agora repito de imediato a audição de um capítulo e admito até uma terceira escuta antes de avançar. Estando reunidas as condições necessárias, conjugo em simultâneo a audição e a leitura, mas não abdico de ouvir apenas, pois é a melhor forma de rentabilizar o tempo investido em tarefas monótonas como correr, lavar a loiça ou conduzir numa auto-estrada. Tenho estado a ouvir Ada and Ardor, de Nabokov, e a experiência é viciante. Uma verdadeira escuta, sobretudo de obras complexas na língua original e com abundância de longas orações subordinadas, exige mais concentração do que a leitura - disso tenho absoluta certeza e só dirá o contrário quem nunca experimentou ouvir um livro. Isto deveria bastar para acabar com esta síndrome do impostor e este problema de consciência, mas há algo mais que ainda não consegui identificar. Talvez seja a inércia da tradição.
