A "indústria da calúnia" e os seus aliados acidentais
Eremita
Em 2018, fazer equiparações entre pessoas caluniadas na imprensa e José Sócrates é um exercício de mérito muito duvidoso. Sócrates foi vítima de uma perseguição ignóbil pelo CM, mas outros órgãos de imprensa investigaram-no de uma forma decente. E o que conta é isto: soube-se entretanto que o ex-PM é um mentiroso (que vai além da mentira inerente ao exercício da política) e tinha um estilo de vida sui generis, incompatível com as funções que desempenhava, o que basta para manter sobre ele uma suspeita e erguer um cordão sanitário que deixe pessoas honestas a salvo de um abraço socrático manobrado por terceiros. Isto é trivial, menos para o Valupi, que lidera o último bastião socrático do planeta e vem alimentando há mais de uma década uma teoria da conspiração segundo a qual o PS é o grande (e único, creio) alvo da "indústria da calúnia" em Portugal e Sócrates um mártir da falência do Estado de Direito. Outros que escrevam sobre a sustentação empírica de tal tese. O que me importa é estabelecer uma diferença de grau e qualidade entre as muitas notícias que foram saindo sobre Sócrates ao longo dos anos e notícias pontuais sobre, por exemplo, o socialista Fernando Medina (o episódio da compra de um apartamento em Lisboa) e o socialista João Galamba* (a propósito de uma casa que estava arrendada pela sua mãe, recentemente falecida). A diferença é óbvia. Muitas notícias sobre Sócrates tiveram um tempo de vida longuíssimo, em parte explicado pela ausência de explicações credíveis, e foram o preâmbulo para uma acusação de "31 crimes". Já a notícia sobre Medina morreu em poucos dias, quando este apresentou a documentação relevante, enquanto a nojenta "notícia" sobre a casa arrendada pela família do João Galamba morreu no momento em que foi publicada, pois nada noticiava. Os maluquinhos socráticos podem continuar a brincar às conspirações, mas deviam evitar equiparações absurdas e imorais que, na prática, dão eco à "indústria da calúnia" que eles tanto criticam.
* Em relação ao João, impõe-se esta declaração de interesses.
