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Ouriquense

05
Mai18

João Galamba

Eremita

Começo com uma declaração de interesses: considero-me amigo de João Galamba e tenho uma grande estima pela sua família. Temos convivido pouco, o que resulta apenas da minha vinda para Ourique, mas sigo com muito interesse e um grande orgulho alheio (o mérito é todo dele) a carreira política do João. Nos últimos dias, li e ouvi vários comentários maliciosos sobre as declarações críticas com que ele contribuiu para a saída de Sócrates do PS. Entre todas as figuras do PS que se pronunciaram, era ele quem estava na posição mais delicada, por ter sido lançado na política e promovido dentro do PS por Sócrates, e ainda por durante largos anos o ter defendido da forma aguerrida que caracteriza o João. 

 

O humor é um prémio de consolação com que a Evolução recompensa o trabalho cognitivo que leva à descoberta de um erro lógico ou qualquer outra incongruência inesperada na nossa integração da realidade. Do mesmo modo que a Evolução associou prazeres a actividades essenciais à sobrevivência da espécie, como o gosto pelo açúcar (que promove a ingestão de calorias) e a atracção sexual e orgasmo (que promovem o sexo reprodutivo), o humor será uma sensação de prazer associada ao raciocínio, porque pensar, isto é, ter a capacidade de detectar bugs no sistema, é fundamental para a espécie humana (Hurley, Dennett, Adams, 2011). Creio que esta teoria mata definitivamente a já moribunda teoria do humor enquanto manifestação de superioridade sobre o objecto do riso. Mas se a teoria do riso malevolente, como, por exemplo, a definiu Hobbes, é obsoleta no caso do humor, encontro-lhe algum valor quando a reciclo como explicação para o prazer que sentimos no achincalhamento público, hoje tão presente nas redes sociais. Por exemplo, há quem se dedique com afinco a mostrar-se moralmente superior ao João Galamba, contrastando o que ele disse e fez há uns anos com as suas declarações recentes, a saber: "Acho que é o sentimento de qualquer socialista, quando vê ex-dirigentes, no caso um ex-primeiro-ministro e secretário-geral do PS acusado de corrupção e branqueamento de capitais. Obviamente, envergonha qualquer socialista, sobretudo se as matérias de que é acusado vierem a confirmar-se." O advérbio "sobretudo" dá uma grande margem de interpretação à declaração, mas seria desconversar não reconhecer que ele fez em público um corte definitivo com Sócrates. Para mim, é mais um motivo de orgulho ver o João associado ao momento em que o PS deixa cair o ex-PM. Acredito que ele o fez com a plena consciência de que precisava de proteger o seu futuro e que, se me permitem a dose q.b. de psicanálise, era fundamental não perder esta derradeira oportunidade para "matar" o seu "pai" político. Foi uma grande decisão e é de pessoas com capacidade para tomar decisões difíceis na hora certa que precisamos. 

 

Naturalmente, para quem não simpatiza com o João ou detesta o PS, tratou-se de uma declaração oportunista e não oportuna. Não me pronuncio agora quanto ao timing e insondáveis motivos que terão levado tantos líderes socialistas a cortar com Sócrates neste preciso momento. Interessa-me apenas defender o direito do João a não ter o seu futuro comprometido por ter sido "um socrático". Para que nos entendamos: Sócrates recrutou o João para o PS e não  para uma organização criminosa que o obrigasse a uma fidelidade canina ao grande chefe. A menos que alguém prove que o João estava a par de algum indício de que Sócrates era corrupto e nada fez, não o podemos colocar sob suspeita pela simples associação ao ex-PM. Só os socráticos fanáticos ainda perdem tempo com a tese da perseguição política a Sócrates, mas ninguém deve ter dúvidas sobre as motivações políticas de quem avança a tese da culpa por associação. Com base no que se sabe, não me choca absolutamente nada que o actual governo integre antigos ministros de governos socráticos. 

 

Sócrates é um mentiroso e um megalómano hábil  - não se trata de uma opinião, esta é uma descrição rigorosa dos factos entretanto apurados com base nas suas próprias declarações. A posteriori, é muito fácil vir lembrar que, a partir de 2005, se foram acumulando indícios e boatos de comportamentos seus incorrectos, mas tal não impediu Sócrates de formar um segundo governo, pelo que a sua credibilidade resistiu durante muitos anos. Também não me parece forçada a ideia de que eram aqueles que estavam mais próximos de Sócrates que mais sofriam de um défice de percepção, pois o conhecimento que temos de alguém só aumenta na razão directa da proximidade que com ela temos se essa pessoa for honesta; tratando-se de um aldrabão, quanto mais perto dele estivermos maior será a probabilidade de sermos enganados e continuarmos iludidos. Se esta ideia não passa à primeira, pensem naquele caso extremo de um homem que durante décadas enganou a sua família inteira fazendo-se passar por médico. Assim, quem afirma que Sócrates é um aldrabão não pode colocar sob suspeita precisamente aqueles que, até prova em contrário, terão mais vezes por ele sido ludibriados, ou seja, o seu círculo de confiança - a contradição parece-me evidente, a menos que a tese seja a de que Sócrates era um aldrabão inábil.

 

Ao contrário dos socráticos fanáticos que se manifestam em blogs e caixais de comentários, frequentemente recorrendo a pseudónimos, o João Galamba dá a cara e o nome. Ao contrário dessa malta, que se pode dar ao luxo de defender até às inexistentes consequências pessoais as suas ilusões de cidadania, o João Galamba é um político profissional e ambicioso, que não podia continuar a ser visto como um "socrático". O seu gesto cirúrgico de emancipação na hora H é apenas a confirmação do seu talento para a política, aqui entendida como uma prática nobre e difícil. 

 

 

 

 

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