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Um diário trasladado

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15
Jun19

A geração seguinte é uma avalanche


Eremita

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Uma das diversões que os comentadores ubíquos permitem é a comparação da sua qualidade no registo oral e na escrita. Muitas vezes, na mesma semana, Daniel Oliveira, Adão e Silva, Marques Lopes e Pacheco Pereira, entre outros, põem no papel o que disseram na televisão. Ou vice-versa. Em rigor, trata-se de um autoplágio; pelo mesmo pensamento, recebem a dobrar (do jornal e da estação de televisão), mas esta é uma mesquinhice que só ocorrerá a quem está sempre à rasca e gosto de imaginar como o perpetuamente indigente Luiz Pacheco teria tratado esta malta.  

 

A seguinte citação de Pacheco Pereira é a versão escrita do que disse na Circulatura do Quadrado. Dou-lhe novamente razão. Aliás, Vasco Pulido Valente escreveu essencialmente o mesmo (a propósito do absurdo que é pedir a políticos causas em que acreditar). Pouco elegante foi terem coincidido no snobismo de não nomear o alvo, que obviamente é João Miguel Tavares. Percebe-se. Seria como atirar uma pazada de neve para trás enquanto se foge da avalanche. Lembro as memoráveis palavras de Seinfeld falando sobre bebés: "they are here to replace us". Por outro lado, é revigorante reconhecer um instinto de sobrevivência naqueles que são mais velhos do que nós. 

Voltemos à democracia. As democracias não tem causas teleológicas, nem “desígnios”, nem “políticas de espírito”, nem “objectivos consensuais”, porque a essência da democracia é a diferença: pessoas que pensam diferente, que se organizam em partes, com visões do mundo distintas, expressando interesses diferentes. Não partilham “desígnios”, nem “sentidos comuns”, nem mesmo, citando Cavaco e Silva, tendo a mesma informação chegam a conclusões comuns. As democracias não são regimes científicos, nem naturais, são artificiais e culturais.

As democracias só têm duas regras, a soberania popular expressa pelo voto, e o primado da lei. O seu programa único é o bem comum, o bem de todos, homens, mulheres, adultos, crianças, jovens, negros e brancos, católicos e budistas, desde o primeiro dia até aos cem anos. As democracias não são providenciais nem religiosas, não acham que os homens na terra estão a fazer uma prova para serem julgados e enviados ou para o Paraíso ou para o Inferno. São regimes laicos e do presente, o bem comum é para os que estão vivos e para quando estão vivos.

Sobre o que é esse bem comum, cada “parte” tem um entendimento diferente, muitas vezes conflitual, quanto ao que isso significa e como lá se chega. Por isso os “consensos”, para além das diferenças, dos partidos, das políticas e das ideologias, são uma anomalia ambígua, por muito que também haja uma “consensomania”, que vem de 48 anos de anátema sobre a política, que os considera momentos altos da vida cívica. Seria tão bom entendermo-nos todos? Não em democracia. Pacheco Pereira, Público

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