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OURIQ

Um diário trasladado

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04
Mai19

A fantasia do náufrago


Eremita

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Primeira edição, 1719

Robinson Crusoe é, infelizmente, um dos livros da minha vida. O ideal seria ter nesta lista livros que mais ninguém leu, mas que existam (uma condição que nem todos respeitam). Escolher o Crusoe não transmite sofisticação, mas talvez ganhe em credibilidade, pois que idiota inventaria ser este um dos livros da sua vida? Limito-me hoje a ler e coleccionar estoicamente comentários depreciativos a este romance, como se cumprisse uma penitência. Leio que, para JG Ballard, "Perhaps, secretly, we hoped to be marooned, to escape our families, lovers and responsibilities" e que, para Barthes, "l'homme-enfant réinvente le monde, l'emplit, l'enclôt, s'y enferme, et couronne cet effort encyclopédique par la posture bourgeoise de l'appropriation : pantoufles, pipe et coin du feu, pendant que dehors la tempête, c'est-à-dire l'infini, fait rage inutilement"*. Evidentemente, tem razão Barthes. Que responsabilidades ou relações tinha eu aos 13-14 anos das quais quisesse fugir? E no entanto, o apelo do náufrago e do colono que conquista o Oeste era fortíssimo, sendo o mais importante na fantasia a construção do abrigo. Por vezes, creio que Nietzsche tinha alguma razão na forma depreciativa como descrevia os intelectuais ingleses. Mas vamos à cacetada no Crusoe:

Crusoe is one of the least attractive heroes in adventure literature. He discharges obligations dutifully but forges no strong relationships that are not ultimately pragmatic. He mouths pious formulas without evincing any deep engagement with his faith. He is a callow dullard incapable of self-reflection, a bookkeeper lacking all trace of artistry, imagination or poetry. For James Joyce he is the true prototype of the British colonist: “The whole Anglo-Saxon spirit is in Crusoe: the manly independence; the unconscious cruelty; the persistence; the slow yet efficient intelligence; the sexual apathy; the practical, well-balanced religiousness; the calculating taciturnity.” Virginia Woolf saw in him a personification of the humdrum bourgeoisie: “cautious, apprehensive, conventional and solidly matter-of-fact”. New Statesman

*O autor não nos diz que Barthes escrevia sobre Jules Verne (na página 75 deste pdf) mas é verdade que a popularidade de Crusoe criou um género. 

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