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Ouriquense

17
Ago18

A esquerda ainda não aprendeu

Eremita

Segundo uma tese que ainda não vi ser desmentida de forma convincente, Trump terá ganho fazendo campanha contra a agenda "politicamente correcta" dos "mainstream media". Cheguei a pensar que o trauma colectivo provocado pela sua eleição seria suficiente para uma mudança radical de estratégia da parte dos intelectuais e políticos de esquerda quanto a um dos temas mais sensíveis do nosso tempo: a liberdade de expressão. Ainda me lembro quando os censores eram a Igreja Católica e os partidos conservadores, mas vivemos hoje num tempo estranho, em que os intelectuais de esquerda promovem a paladinos da liberdade de expressão personagens como João Miguel Tavares e as universidades anglo-saxónicas beneficiam as carreiras de figuras muito, pouco ou nada recomendáveis sempre que as censuram.

 

Basta ler as duas crónicas de Rui tavares e a de João Teixeira Lopes sobre o convite a Marine Le Pen para falar na Web Summit e sua posterior anulação na sequência de protestos das "redes sociais" e dos partidos de esquerda para concluir que a esquerda não aprendeu nada com a eleição de Trump. Na primeira crónica, Tavares remata dizendo que declarar Marine Le Pen persona non grata é uma exigência que decorre da nossa soberania nacional e antes tinha concluído que dar palco a Marine Le Pen ou retirar-lhe o palco tem o mesmo efeito prático. Tem? Como pode Tavares chegar a tal conclusão? Que estudos cita? Que experiência partilha? Ninguém sabe, pois na segunda crónica ofereceu-nos apenas um exercício de estilo à historiador em que nos explica que até Voltaire, o grande defensor da liberdade de expressão, fala da "necessidade de não se ser tolerante com os intolerantes". Infelizmente, a credulidade é como a virgindade, depois de perdida nunca mais se recupera. Por isso, fui ler Voltaire. Os únicos casos em que o francês nos diz que a intolerância é uma necessidade são de um fanatismo religioso atroz que vai muito além da mera opinião, sendo um dos exemplos uma comunidade que praticava o infanticídio logo após o baptismo para garantir um lugar no céu às suas vítimas, pois morrendo não teriam oportunidade de pecar. Marine Le Pen pode ser populista, fascista e até racista, mas é improvável que despertasse em Voltaire a intolerância que Rui Tavares nos vende. 

 

João Teixeira Lopes, um bloquista satisfeito, vai pelo mesmo caminho, só que de uma forma mais desastrada e caricatural. Interpela João Miguel Tavares com arrogância, sugerindo mesmo que se mude do Público para o Observador e que o cronista é um amigo de Marine Le Pen. O João Miguel, o Alberto Gonçalves, algum inevitável humorista e outros profissionais da liberdade de expressão agradecem.

 

Sou sensível ao argumento da utilização do dinheiro público. Aprecio uma discussão historicamente informada sobre a maior tolerância de que goza a extrema esquerda quando comparada com a extrema direita. Mas sejamos pragmáticos e não compliquemos. Uma vez cometido o erro de casting (Portugal nada teria a ganhar com a vinda da senhora), pior só mesmo dar a Marine Le Pen uma oportunidade de vitimização e deixar a bola a pingar na pequena área para a "direita liberal", os conservadores e todos os adversários da esquerda aplicarem um volley fácil mas de belo efeito.  

 

"Stupidity is doing same thing and expecting different results", disse Einstein. Há quem lhe chame coerência, mas deve ser alguém sem rasgo para fundir o espaço e o tempo. A esquerda não pode continuar a cometer o mesmo erro. Qualquer tentativa de censura activa e pública do discurso de um adversário político é contraproducente e todo o esforço deve ser canalizado apenas na promoção do discurso que se defende. A solução não é abandonar o discurso de esquerda, mas a atitude. Se a esquerda sublimasse a tentação da censura com cinismo e ironia, reprimindo a sua tendência natural para a indignação e o moralismo, os seus inimigos iriam ficar baralhados e sem ganha-pão, a vitimização não mais aconteceria e talvez, a pouco e pouco, a liberdade de expressão voltasse a ser uma causa da esquerda. Menos Voltaire e mais Maquiavel, s.f.f. 

 

 

 

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