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Um diário trasladado

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04
Mai19

A esfericidade do poliedro (7)


Eremita

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A fome de bola podia surgir a qualquer altura; por exemplo, na cozinha. Sem uma bola por ali, apanhava uma aresta do frigorífico a jeito e dava-lhe um chuto com o peito do pé, como se me pedissem um livre directo. Ficava depois a olhar para o frigorífico, a voar cheio de momento e suficiente rotação para descrever um arco magnífico. Nunca pensava no que se passaria lá dentro, em que estado de agitação estariam as hortaliças, os pacotes de leite, o fiambre, o pacote de manteiga e os triângulos de queijo Tigre. O electrodoméstico levava selo de golo. Ainda não consigo perceber o encanto de certas arestas, o que as tornava mais especiais do que as outras, mas havia dias em que apetecia mesmo aplicar-lhes um pontapé. Via a aresta e imaginava logo uma bola. Perante esta pouco sensata busca da esfericidade do poliedro, a quadratura do círculo nunca me pareceu um problema transcendente. Acrescento, em minha defesa, que este comportamento vagamente patológico não era coisa para todos os dias. Surgia raramente e logo pela manhã. Saía então para a rua com uma vontade irreprimível de fintar os postes e as velhinhas. Tornava-me num jogador praticamente genial. Apanhava uma porção de passeio desimpedida e ganhava vontade de correr com a bola que mais ninguém via. Surgia então o festival de truques à Maradona e variações de velocidade à Butragueño, para acabar em apoteose com uma papinade, mesmo depois de ter estilhaçado uma costela flutuante à custa dessa brincadeira.

 

A mania atenuou-se. Porém, ainda hoje, sozinho no elevador, por vezes ignoro o circuito interno de vídeo e faço malabarismos com uma bola invisível. Aqui em Nova Iorque, lembro-me de ir visitar o James, que trabalha num quinquagésimo quinto andar, só para bater o recorde pessoal de toques sem a deixar cair. Eu sei que é difícil perceber esta obsessão, até porque nunca fui um grande jogador de futebol. Mas talvez seja precisamente essa a explicação. Faltava-me o génio abstracto de um Néné, que tinha a enigmática mas lógica reputação de melhor jogador sem bola a pisar os relvados de Portugal. Eu precisava de ver sempre a bola, mesmo quando a bola não estava lá.

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