Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

15
Abr19

A Bola no Olival (1)


Eremita

bola velha.jpg

Esforço-me por não ver do serpenteado daquelas ruas mais do que um labirinto suburbano. E por não fazer do labirinto mais do que um local onde estranhos e taxistas debutantes se perdiam com facilidade. Há anos que não me demoro pelo bairro. Às vezes, sentado na cama de um quarto de hotel, de pé do outro lado do mundo - não domino estas coisas - regressam os troncos de plátanos com declarações de amor gravadas a canivete, os rostos dos condutores da carreira do 21, mas de bigodes trocados, a menina feita mulher da caixa registadora número 2 do supermercado, mas sem precisar a cor da roupa. Lembro-me de onde comprar tubos de plástico a metro para fazer zarabatanas amazónicas, como se ainda precisasse disso. E penso no João, do tempo em que era novo e já maluco, um homem de genealogia censurada, a fazer do bairro aldeia perdida na serra, com o primo a lançar mão à prima e a prima a deixar-se apanhar. Sei evitar os Candeeiros, lugar mal frequentado, mercado de sonhos a prazo e ressaca garantida, que resistiu mais que a praça, mesmo ao lado, agora terra plana à força mas onde, entre tantas peixeiras iguais no arcaboiço e pujança vocal, ia à singular florista comprar cravos, as mesmas flores que aprendi a esconder à passagem do café do retornado de Angola, desde o dia em que ele quase investiu contra mim, como um touro excitado. As silhuetas das faias domesticadas pela poda são termo de comparação e surgem também os plátanos, os abrunheiros e os arbustos, que se enchiam de bagas laranja na Primavera. As oliveiras de outros tempos já então não chegavam para encher a avenida. E o Tejo, ao fundo, encerrava uma promessa de brisa fresca e imutável, apesar da cintura industrial que nos apertava. Acelerados pelos declives suaves vejo bicicletas sofisticadas, skates e patins de linhas futuristas. Mas se espero mais um pouco, oiço também o inconfundível ruído dos rolamentos sobre o asfalto do primeiro carrinho de esferas para três passageiros com molas de colchão convertidas em suspensão traseira. Como se organiza um bairro na cabeça? Se são inúmeras as imagens de fabulosas jogadas que tiveram lugar nos relvados dos Olivais, talvez por aí. As fintas em situação de aperto do meu irmão, os pontapés estratosféricos do Afonso Melo, os raides geniais do gajo mais inteligente que vi a jogar à bola: Diogo Pipa. Havia um tipo, baixinho e entroncado, que se especializou naquele gesto técnico de avançar um pé, encostar-lhe a bola ao calcanhar com o pé traseiro, que depois roda sobre ela e a faz subir um pouco, apenas o suficiente para ser catapultada quando a perna direita dá um coice em colherada, fazendo-a descrever um arco que sobrevoa o corpo do jogador e do defesa, surpreendido e ultrapassado pela bola, que lhe faz um chapéu, e pelo jogador, naquele caso baixinho e entroncado, que o ultrapassava por um dos lados e recuperava o esférico mais à frente. Havia mulheres que tomavam banho a meio da tarde, enquanto jogávamos. Houve noites de Verão com jogatanas em que os petardos do Samagaio por certo baralharam o sonar do morcego solitário que fazia círculos ao candeeiro público. Bem sei que a vida só se torna interessante depois da puberdade, mas fomos crianças felizes naqueles relvados. 

 

Da série A Bola no Olival, 100 textos curtos sobre a infância antes da puberdade no bairro Olivais Sul (Lisboa) no final dos anos 70, princípio dos anos 80. Os textos apareceram pela primeira vez no extinto A Memória Inventada e estou a republicá-los no Ouriq com pequenas emendas e acrescentos. 

 

Pesquisar

Pub e serviços

Screen Shot 2019-04-07 at 17.13.03.png

”Screen

Comentários recentes

  • Anónimo

    O facto de o senhor ser responsável pelo programa ...

  • caramelo

    Blablá sarabanda alucinante bláblá geração perdida...

  • caramelo

    Eremita, o presidente da CCDR é um gestor público....

  • Maria

    O costume. Tentam a ver se passa. É incrivel o d...

  • Margarida

    Um caso estranho...

Links

WEEKLY DIGESTS

BLOGS

REVISTAS LITERÁRIAS [port]

REVISTAS LITERÁRIAS [estrangeiras]

GUITARRA

CULTURA

SERVIÇOS OURIQ

SÉRIES 2019-

IMPRENSA ALENTEJANA

JUDIARIA

Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2016
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2015
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2014
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2013
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2012
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2011
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2010
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2009
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2008
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D