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OURIQ

Um diário trasladado

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12
Jan10

Os Espantalhos


Eremita

Não se sabe como começou o hábito dos amores vagos. Parecia claro que era uma forma de espantar um desgosto de amor passado e de prevenir o desgosto futuro. A moda pegou. Por toda a cidade, nunca se amara tanto e de forma tão vaga. Um dia passou por lá um sábio, que num ajuntamento festivo a todos se dirigiu: "lembro-me bem de um campo de cultivo que resistiu durante anos à passarada e aos gafanhotos. Era a melhor terra das redondezas e os aldeões faziam tudo para a proteger. Até que alguém se lembrou de colocar um espantalho no meio do campo. No ano seguinte, colocaram dois. Não demorou a que todos quisessem demonstrar o seu apreço por aquele campo. E foi uma praga de espantalhos que acabaria por matar as culturas. De tanto insistirem em espetar espantalhos, não sobrou um palmo de terra arável. Esta cidade é um pouco com aquele campo. Perdoem-me, mas tenho diante de mim uma multidão de espantalhos. Reparem nos vossos braços, abertos mas hirtos. Como espantalhos. Ainda se lembram como se abraça?" Fez-me silêncio e depois ouviu-se uma voz, tímida e anónima: "vagamente..."

12
Jan10

O Chafariz


Eremita

Era uma vez um homem desconfiado, num deserto como os desertos de dunas dos países subdesenvolvidos, mas com rede de canalização subterrânea que substituíra todos os oásis por chafarizes. Depois de ter caminhado durante três dias ao sol, o homem avista um chafariz e precipita-se para ele. Curva-se para abocanhar o repuxo, mas depois hesita. Nunca tinha usado um chafariz, por desconfiar que a água recolhida no ralo é reciclada e volta a sair pelo repuxo. Ainda pensou que passara provavelmente muito tempo desde que a última pessoa usara o chafariz e que qualquer perigo, que ele não conseguia imaginar muito bem, se teria entretanto diluído ou atenuado. Mas reparou depois numas pegadas que não eram as dele. Com o vento que fazia, só podiam ser recentes. Por isso não bebeu e por ali ficou, sedento. No dia seguinte, chegou um leproso. O homem desconfiado explicou-lhe como funcionam os chafarizes e o leproso entendeu que não tinha o direito de beber. Ficaram por ali os dois, sedentos, olhando o repuxo que brilhava sob o sol incandescente. Ao terceiro dia chegou um homem razoável, que ouviu o homem desconfiado e escutou depois o leproso. Tentando fazer-lhes ver o absurdo da situação, virou-se para o leproso e disse-lhe: "bebe tu primeiro, que eu beberei a seguir e assim ele perceberá que não há perigo e beberá no fim". O homem inspirava confiança e o que dizia fazia sentido. O leproso aproximou-se do chafariz e ainda molhou os lábios, mas naquele preciso momento houve um corte de água. No último diálogo que travaram, já com o leproso morto e enterrado, o homem razoável lamentou o progresso e desejou ter um poço por perto, ao que o homem desconfiado respondeu: "seria seguro beber do mesmo balde que usamos para ir buscar a água ao fundo?"

 

 

 

 

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