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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

07
Fev10

XI


Eremita


John Coplans


 

20.04.08 Uma colega de faculdade que não via há mais de 25 anos cruzou-se hoje comigo no ginásio. Não teria sido capaz de a reconhecer e comportei-me com o cuidado necessário para quem não se lembra do nome do interlocutor. Houve conversa de circunstância, ela disse-me que tinha engordado e eu respondi que também engordara - não sendo mentira, tentei sobretudo ser solidário. "Mas tu eras esquelético", respondeu-me - sendo verdade, soou-me sobretudo cruel.

26
Jan10

X


Eremita

John Coplans

 

 

12.04.08 Sou canhoto. Dos pés à cabeça, a parte esquerda do meu corpo parece levar décadas de avanço sobre a parte direita. Há um cansaço que se aloja à esquerda, mas também experiência e destreza. A parte direita está mais fresca, e é mais ingénua e canhestra. A direita só acompanha a esquerda no crescimento e na aquisição de força - é sempre com surpresa que confirmo poder levantar com o braço direito o mesmo haltere que o braço esquerdo ergueu. Mas sinto as duas partes como corpos de siameses que se tocam um no outro ao longo de todo o plano sagital. Sorte minha não haver contencioso entre as partes sobre a quem pertence o umbigo.

24
Jan10

IX


Eremita

John Coplans

 

10.04.08 Enquanto me secava, lembrei-me que os ecologistas classificam as relações entre indivíduos de espécies diferentes segundo uma lógica de custo e benefício. Na simbiose, o benefício é mútuo. No comensalismo, um é beneficiado e o outro não é muito incomodado. No parasitismo, um perde para que o outro possa ganhar. Não se podia ser mais claro. Mas consideremos o líquen. É o paradigma da simbiose, metade alga, outra metade fungo. Este recebe alimento daquela e retribui em protecção e humidade. Parece uma relação doméstica à moda antiga, em que o fungo é a mulher e a alga, a breadwinner, o homem. Os dois estão até condenados a viver um com o outro e os naturalistas, para não agitarem o sempre efervescente mundo da botânica, decidiram que esta seria uma "relação feliz". Só alguns, no estilo pica-na-merda, falam de hilotismo. O termo remete para os hilotas, o mais baixo estrato social da cidade soberana de Esparta, que eram propriedade do Estado e seriam - enfim - mais felizes do que escravos propriedade de cidadãos. Como se percebe, a matéria é menos consensual do que julga, mas ainda mais quando se pode saber a opinião dos intervenientes.

 

O pé de atleta é uma dermatofitose provocada por um fungo que se alimenta de células mortas queratinizadas e provoca lesões vesiculosas nos espaços interdigitais dos pés. O fungo estabelece uma relação física íntima com o homem e, para muitos, esta será a relação mais íntima e duradoura das suas vidas. Existe tratamento, mas é prolongado; o fungo pode manter-se para sempre entre os dedos, como um amor mal resolvido. Por vezes há sangue e quem vê as feridas não tem dúvidas em dizer que se trata de parasitismo, mas quantos homens, que as têm, não reconheceriam, sob anonimato, viver uma simbiose? O fungo come, o homem coça-se, o prazer nasce.

 

04
Jan10

VIII


Eremita

John Coplans

 


9.04.08 Há quem não se reconheça no sexo que lhe coube em sorte e quem se estranhe ao espelho. Nunca experimentei tais aflições, mas há décadas que um centímetro quadrado parece não me pertencer. Fica na parte interna do cotovelo direito e sinto-o como um enxerto de pele de alguém com nervoso miudinho.

27
Dez09

VII


Eremita


John Coplans

 


7.04.08 Nos magros, a gordura chega sempre de repente. Explicando melhor: a progressiva e lenta acumulação de gordura não impede que a sua percepção seja uma surpresa. Uns homens entendem-na como a somatização de um trejeito feminino e outros aceitam-na como um sinal da inexorável marcha do tempo. Mas em ambos há um fascínio juvenil pelas qualidades deste novo tecido, que lhes era tão estranho. A forma como a gordura reage ao toque, propagando à superfície o impacto que os tecidos ricos em colagénio logo absorvem, é novidade. A película de gordura no peito e sobre os ombros sente-me como um casaco que se sabe vestir mas não se comprou, sobretudo nas poses pouco usuais ou maneiristas. Há um certo fascínio nesta capacidade de o corpo mudar a forma, que restaura a esperança em mudar o feitio. Naturalmente, este ânimo só dura uns quilos.

 

Do princípio de papada falarei mais tarde e termino com a gordura localizada na barriga. É a mais feminina de todas, pelo menos ao tacto. Chega a parecer gordura de matrona ou de jovem menstruada que ganhou celulite. Tudo depende do ângulo de incidência da luz. No couro cabeludo, a luz não deve incidir de topo, para que um homem mantenha a ilusão de cabeleira farta. Na barriga, a luz nunca deve incidir obliquamente, para que as pregas não ganhem o volume da sombra e, sobretudo, para que aquela superfície imperfeitamente lisa não pareça ainda mais acidentada. Envelhecer bem não é apenas a arte de saber comer e fazer exercício. Envelhecer bem só se consegue com uma boa luminotecnia. E quando tudo falha, apaga-se a luz.


08
Out09

VI


Eremita

John Coplans

 

2.04.08 A melhor comédia humana acontece todos os dias diante do espelho dos ginásios. Há a versão para todas as idades, diante do espelho da sala das máquinas, e a versão para maiores de 16 anos, diante do espelho do balneário.  

20
Set09

V


Eremita


John Coplans



30.03.08
Se um autocarro com membros de uma orquestra sinfónica se despenhasse, por mais minuciosa que fosse a inspecção aos cadáveres seria impossível identificar quem tocava o quê. O exercício também é válido para uma orquestra filarmónica, para um grupo de música barroca e uma big band. Mas se no autocarro em que viajava a orquestra estivesse também o concertista que com eles acabara de interpretar a Fantasia para un Gentilhombre, não seria preciso um detective para o identificar; bastaria olhar para as mãos de todos eles.

 

Não há na civilização ocidental registo de um tocador de tuba enfezado, mas também os talhantes podem ser robustos. As bochechas de Dizzy Gillespie eram idiossincrasia e não traço distintivo da classe dos trompetistas. Maria João Pires tem umas mãos pequenas. Com a ressalva de me escapar outro, só conheço um instrumentista que molda o seu corpo ao instrumento. É o guitarrista.

 

Em rigor, as unhas de um guitarrista são mais instrumento do que corpo. É como se parte da guitarra ficasse agarrada às mãos. Por crescerem continuamente, as unhas precisam de ser limadas, mas também o instrumento requer tratamento. Sendo as unhas a menos orgânica das estruturas externas do corpo e sendo a madeira o mais vivo dos materiais inertes, o dedilhado restaura a ordem natural das coisas.

 

Quando me perguntam se toco guitarra, procuram apenas uma confirmação. Mais perspicaz foi a rapariga que descobriu vergonha no meu hábito de ter os dedos recolhidos num perpétuo punho frouxo, para assim esconder as unhas. Estava era equivocada. O problema não é a imagem horripilante das mãos de um homem com unhas compridas, antes o desconforto de quem sabe que não é um guitarrista de verdade e que, por isso, não merece exibir as unhas que tem. É vergonha, sim. Mas não é a vaidade, são os remorsos.

 

17
Set09

IV


Eremita


John Coplans

 


23.03.08 Lesionei o gémeo da perna direita no tapete rolante, há umas semanas. Foi inglório e também estúpido, pois acelerei bruscamente e não havia aquecido. Ainda não passou. Coxeio agora com alguma subtileza e estou em tirocínio intensificado para a velhice. O corpo vai dando de si. Dois molares destruídos pela ondotologia francesa, o rádio e o cúbito do braço direito tortos, um eczema persistente sobre o esterno, joanetes indomáveis e uma densidade capilar que já não resiste à iluminação a pique são as manifestações exteriores do passar dos anos. Internamente, só uma otite crónica me dá problemas. Em termos comportamentais, a libido dos 20 anos já só pode ser testemunhada - sejamos positivos - por mulheres que perdi de vista. Podia ser pior, mas sinto que comecei a apodrecer.

 

Mas esta dor é a de um privilegiado. Só volta se esforço a perna e é tão pouco intensa que não me limita. Fruto de um azar e de alguma displicência, também não compromete como a autoflagelação.Vai pois cumprindo o seu papel, distraindo-me de outras preocupações e sem grande ónus. Oxalá demore a passar. Nada como uma suave dor crónica para nos recordar em permanência as coisas essenciais.

 

 

* Explicação para esta série, que foi escrita antes de chegar a Ourique e agora me limito a rever.

02
Abr09

III


Eremita

John Coplans

 

 


23.03.08 No leg press, reparei que tenho uma zona de pele despigmentada perto do joelho direito. Trata-se de uma área muito pequena e com uma forma que se afasta da de uma vulgar cicatriz e se parece mais com um país de velhas fronteiras. Fiquei a série inteira a olhar para a pequena mancha, que a cada repetição se  afastava e de novo se aproximava. Não sei há quanto tempo ali está, talvez há anos, nem como apareceu. Como não sou hipocondríaco, não farei desta observação pretexto para um longo texto sobre todos os tipos de despigmentação de pele, as suas causas, tratamentos e prevenções. Digo-o com pena. A tara do hipocondríaco, como a o paranóico, pode potenciar-lhe o talento literário.

 

20
Mar09

II


Eremita

 

 

 

 


John Coplans


 

 

25.03.08 De todos os tipos que se passeiam pelos ginásios, tenho especial ternura pelos homens baixos entroncados e pelos homens velhos de corpo atlético. As mulheres não me despertam particular interesse, excepto as elegantes - o que é um interesse banal. Faz sentido que seja assim: vai-se para um ginásio por narcisismo e os homens que por lá se passeiam têm algo de sobrenatural. Não são espectros, são espelhos das nossas fobias ou dos nossos desejos. As mulheres são criaturas absolutamente irrelevantes. Às vezes imagino Alexandre Herculano numa máquina de chest press, gritando como terá gritado no leito de morte: "levem daqui as mulheres!" Mas nem seria preciso: as mulheres dos ginásios são praticamente invisíveis para mim. Sei que algumas até se vestem com cores garridas, mas ficam registadas na memória como uns vultos à Noronha da Costa, embora em fatos de lycra e sem sombrinhas, ou então apenas como manchas desfocadas e sem género aparente.

 

Os homens baixos entroncados lutam contra o espaço e os homens velhos de corpo atlético lutam contra o tempo. Por isso balizam todos os outros homens. Estes dois tipos remetem-nos também para duas questões centrais em Biologia -  o que controla o tamanho do corpo? O que determina a longevidade? Embora não tenha feito um teste estatístico,  é curioso haver tão poucos homens velhos baixos e entroncados no ginásios, talvez por ser difícil lutar contra o espaço e o tempo em simultâneo. 

 

 

 

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